Terça-feira, 7 de Julho de 2009

as lesmas & as alfaces

 

Temos um sentimento de indignação pessoal quando as lesmas fisgam as nossas alfaces preferidas de todas as plantas possíveis que existem nas hortas. Afinal de contas são apenas lesmas; mas porque é que elas não conseguem ser felizes com as folhas das sálvias e das petúnias ou com quaisquer ervas daninhas? Como se atrevem a ser assim tão pretensiosas? Raios partam o raio das lesmas dum raio! Pois bem, as senhoras donas lesmas preferem as folhas de alface a todas as outras, exactamente pela mesma razão que nós: são menos venenosas. Ao longo dos últimos duzentos milhões de anos, as plantas criaram nas suas próprias seivas uma série de químicos desconcertantes para se protegerem de serem comidas. Atenção: comidas do verbo comer pois as plantas, como não podia deixar de ser, claro está, são vegetarianas e não cedem aos prazeres da carne. Ora, incluem-se nesses químicos que referi anteriormente, nomes de substâncias esquisitas como sais orgânicos ou inorgânicos, minerais tóxicos, álcoois, aldeídos, alcalóides, compostos polifenólicos e salicilatos. Tudo bem, nem eu sei o que metade destas palavras querem dizer mas o meu motor de busca gosta de se armar em bom! Além disso, é sempre motivante escrever sobre o que não sabemos para quem também não sabe do que falamos. Botânicos, vocês não contam, está bem!? A verdade é que adaptámos alguns destes venenos como semi-venenosos para nosso próprio uso – tabaco, cafeína, cocaína, entre muitos outros. Noutros até encontrámos uso medicinal, como a aspirina que foi encontrada nas cascas das árvores do salgueiro. Outros venenos foram cuidadosamente retirados das estirpes das plantas: tais como a batata e os tomates que descendem ambos da beladona. Nada disso, não se trata duma mulher italiana vistosa, até porque é uma planta venenosa embora também medicinal. Voltando ao inicio: as lesmas preferem as folhas das alfaces porque estas são também da família dos girassóis – ambos da espécie helianto – que são na realidade plantas consideradas doces e cujo cultivo é feito há milhares de anos. O nome “alface” vem do árabe “al-khass” e no antigo Egipto era cultivada para aproveitar o óleo extraído das sementes. Já na mitologia Grega, a alface foi simbolicamente relacionada com a morte, pois segundo a lenda, o amor entre a deusa Afrodite e o jovem Adonis teve um fim trágico quando este último foi morto por um porco selvagem (!) no jardim das alfaces onde Adonis se escondia. Será que Adonis era uma lesma? Não sei, mas é preciso ser tão lento como uma lesma para não conseguir fugir dum porco mas também um pouco estúpido para se deixar apanhar, digo eu...
 
Também o povo romano foi consumidor de alface e até era costume as elites servirem alface como entrada, antes do prato principal, com rabanetes e outros legumes crus. Essa prática ainda perdura em algumas regiões e países, como por exemplo na França. Mas é claro que as lesmas não sabem disto e também pouco se importam de onde vêm as alfaces: apenas nós é que nos preocupamos em cultivar alfaces acéfalas ou romanas, de folha lisa ou crespa, e repolhudas. As lesmas estão-se a borrifar para a variedade, até porque têm muito mais com que se preocupar. Por exemplo, eu já tive a oportunidade de assistir a uma luta violenta por um pedaço de alface já ratado entre uma lesma e um caracol. Aquilo é que foi um combate! É claro que ganhou a lesma pois o maricas do caracol fechou-se em casa acagaçado. Por acaso gostava de ver como se seria um combate entre uma lesma e um pulgão… Ou entre uma lesma e uma larva mineira. As lesmas podem até ser pretensiosas mas temos que compreender a sua sabedoria e respeitar o seu passado. Pertencem à família dos gastrópodes, na classe dos moluscos mais vasta e existem desde os períodos Jurássico e Cretácico, e até escaparam à revolução paleozóica quando tudo o que era vida foi desta para melhor. Então, como é possível ainda ficarmos indignados com a prepotência das lesmas? Haja respeito, porra! O sacana do bicho já levou com gelo e fogo, meteoritos e dinossáurios, livrou-se de ser um fóssil, e nós ainda temos a lata de os privar de comer uma porcaria duma alface? Mais ainda: desde cedo se tornaram independentes, fazendo-se à vida, saindo das suas “casas”, pois no decorrer do seu processo evolutivo deixaram para trás as suas conchas calcárias. Além disso, há que ter consideração e até admiração por um bicho que tem olhos, boca e órgãos genitais concentrados num mesmo local: literalmente, na cabeça! As lesmas, para lá de pensar em comer alfaces, também pensam constantemente em comer outras lesmas. Desenganem-se quem pensa que as lesmas são paniscas só por serem hermafroditas. Os caracóis é que são uns grandes rabetas, pá! São comidos por toda a gente! As lesmas têm apetite voraz e são verdadeiros animais sexuais! De tal forma que as relações sexuais entre esta espécie podem prolongar-se durante semanas. E quando param… Só se for mesmo para comer uma alface. Caso haja por aí gente interessada em relações duradouras, é só seguir-lhes o rasto do muco (!)
 
Um abraço...
shakermaker
 
para ver: Sweet And Lowdown » Allen/Penn
para ouvir: For What It's Worth por Placebo em Battle For The Sun (2009)
blogjob por shakermaker às 00:00

ISOLAR POST | DESANCAR POST | RECOLHER POST
15 LINCHAMENTOS:
De cigana a 10 de Julho de 2009 às 02:30
Até que enfim, pode-se desancar à vontade!

Dizem que quem não tem o prazer da comida também não tem o prazer da líbido... Não sei até que ponto isso está provado, mas as nojentas das lesmas comem como alarves, reproduzem-se como coelhos e resistem a tudo! E quem se lixa não é o mexilhão, é a alface!
De http://shakermaker.blogs.sapo.pt a 10 de Julho de 2009 às 23:29
Ora viva Cara Cigana!

Ok, tudo isso é verdade mas eu sou pelos oprimidos e injustiçados, logo estou do lado das lesmas!

Obrigado e volte semore para desancar!

Um abraço...
shakermaker

desancar shakermaker

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