Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

vícios de boca

 

Antes de entrar num restaurante, dá-se uma vista de olhos na ementa e aproveita-se para fumar um cigarro. Depois, e após entrar definitivamente no restaurante, deve-se confirmar se a confecção do prato escolhido vai demorar. Se assim for, entre um Martini e umas azeitonas, vem de novo cá fora fumar mais um cigarro. Já depois de degustar a refeição e após escolher a sobremesa, pede-se ao empregado para reter mais um pouco esse pedido, enquanto vai lá fora fumar outro cigarro. Digere a sobremesa e pede de seguida um café. Então surge o primeiro dilema: ou pede a conta de imediato e vai fumar o tal cigarro obrigatório depois do café ou faz precisamente o contrário pois pretende ainda voltar a sentar-se à mesa para mais um dedo de conversa enquanto faz aquela pausa tão necessária de quem acabou de encher o bandulho. É que não deve ser nada fácil para o empregado que o serve, saber se está apenas a deslocar-se ao exterior para fumar ou se, por outro lado, anda a ver se dalguma forma se escapa sem pagar a conta. Neste momento sente-se perseguido: além dos empregados de mesa, também os outros clientes do restaurante – provavelmente não fumadores – já reparam que não pára quieto no seu lugar e que tem aquela doença horrível do tabagismo. Está consciente que está sob o foco dos outros e que todas as suas acções, dentro e fora do restaurante, são acompanhadas com algum desdém.

 

O melhor é pagar logo a conta e sair quanto antes desse ambiente tão hostil para si: membro horripilante dessa corja que são os fumadores. Cá fora, sente-se perfeitamente consciente que a sua passagem por aquela casa de pasto não foi vista com bons olhos. Pressentiu os sussurros alheios e sentiu-se por demais observado. Para atenuar a carga negativa do momento e aliviar, provavelmente, algum stress, puxa doutro cigarro. Veja só, logo você que até nem é um fulano que fume muito, nessa noite e em pouco mais de uma hora já fumou quatro cigarros. E tudo isto porquê? Sabe, muito provavelmente porque ao saber que não pode fumar em recintos fechados, tais como restaurantes, mais depressa se lembrou do seu maldito vício. E digo maldito porque só agora, com esta nova lei, este embaraço se lhe depara. Antigamente, ciente que estava rodeado duma maioria não fumadora, tinha o cuidado de não fumar para não os incomodar. Até porque, se o quisesse fazer, tinha também a antiga lei para o proteger. Mas, analisando as consequências, talvez preferisse mesmo não fumar só para não se chatear. E dessa forma também não aborrecer o próximo. Só que agora, o caso muda de figura: um pouco como a velha história do fruto proibido ser o mais apetecido.

 

Eu estou de acordo com o princípio de razão da nova lei, e isto que fique bem claro. Só que não estou de acordo pela forma com que esta é aplicada. Nomeadamente, no que diz respeito às coimas e ao desrespeito de algumas liberdades fundamentais. Não estou a querer entrar em argumentações sobre direito cívicos e de igualdades em sociedades mas apenas a contestar a medida radical aplicada aos cidadãos que por sua livre vontade gostam de fumar. Não se trata aqui apenas dum vício puro e simples, nem tão pouco duma doença congénita ou transmissível. Sim, de facto o tabaco mata, porém só se padecermos duma doença provocada por este. Assim como os automóveis também matam, principalmente se conduzirmos embriagados. Há que haver, como em tudo na vida, e em sociedade, bom senso no tratamento destas questões e opções individuais. Se o governo que fez passar esta lei está realmente preocupado com a saúde dos fumadores, então eu deixo aqui uma sugestão bem mais eficaz do que esta lei: aumentem devidamente o preço do tabaco. A melhor forma de diminuir o consumo é aumentando-lhe o preço. Mas aumentem o preço do tabaco de tal forma que seja nitidamente incomportável sustentar esse vício. É que tudo aquilo que nos sai do bolso tem realmente mais impacto, na medida em que pesamos os prós e contras ao adquirirmos algo que é caro e que, ainda por cima, não nos faz bem à saúde.

 

Repito: não nos faz bem à saúde, o que não é a mesma coisa que dizer que isso nos faz absolutamente mal. Com esse proposto aumento do preço do tabaco, não só seria meio caminho andado para haverem menos fumadores, como, e ao mesmo tempo, quem adquirisse um maço de tabaco tratava de o fumar racionalmente: logo fumando menos. Na verdade, ao preço a que está o tabaco não nos aquece nem arrefece. Não são uns míseros cêntimos que nos aumentam em cada maço todos os anos que nos vão demover em deixar de fumar. Além disso, o Estado não está minimamente interessado em perder os seus ganhos anuais em impostos sobre a venda de tabaco. Definitivamente, com esta nova lei, os fumadores estão OUT e os não fumadores estão IN. Mas não estou a querer dizer com isto que os fumadores são uns tipos estúpidos que se querem matar com o fumo dos seus cigarros. Nem tão pouco dizendo que agora já não fazemos mal com o nosso malfadado fumo aos seres superiores dos não fumadores. Não, nada disso! Neste momento, em qualquer espaço público fechado, nós que fumamos ficamos cá fora e eles que não fumam ficam lá dentro. Há que separar o trigo do joio e manter os fumadores longe dos que não fumam é um bom prenúncio para as sociedades modernas. Já agora, e como estamos numa de legislar directivas saudáveis, eu gostava que proibissem os pobres de espírito de abrirem a boca em recintos fechados.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Smoke » H.Keitel / F.Whitaker
para ouvir: SmokeGetsInYourEyes » BryanFerry » AnotherTime,AnotherPlace
blogjob por shakermaker às 00:00

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De KI a 11 de Janeiro de 2008 às 12:44
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