Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

como ser paranóico

 

Seja conflituoso e interprete tudo mal. Viva sempre obcecado por tudo e por nada. Aliás, o melhor é tornar-se mesmo paranóico. Sim, é sem dúvida o meio mais seguro que existe para se ser incompreendido e superior ao seu meio, ainda que sozinho. Isto consiste em dois exageros justapostos: 1) a ideia de que tudo tem um sentido; 2) de que esse sentido nos é hostil. Acreditar nisto é como ser-se duas vezes louco. Em primeiro lugar, há muitas coisas no mundo que não possuem nenhum sentido em particular. Ou seja, todas essas coisas, simplesmente, existem. Em segundo, e de qualquer modo, são coisas que ignoram, de todo, a nossa existência. Coisas que não têm nenhuma intenção, utilidade ou nocividade, e opinião a nosso respeito. Mesmo que não nos importemos, são coisas que estão lá e que ocupam o mesmo espaço que nós. Contudo, todo o verdadeiro paranóico gosta de se sentir espiado e deveras perseguido. É como que um voyeur do avesso, um exibicionista que se sente observado. Ele pressente que o perseguem mesmo sem ver o seu perseguidor. Ele foge de alguém mas no fundo quer-se deixar apanhar. Porém, não há ninguém que lhe queira deitar a mão. Não faz mal, até porque pode nem ser um ser vivo. Claro, pode estar a ser espiado por um objecto. Mesmo por uma coisa tão inofensiva, e desprovida de qualquer intuito, como uma pedra. Sim, uma simples pedra de basalto com que se calcetam os passeios por onde andamos. O segredo da paranóia e dos seus arrabaldes é o delírio. Ou, por outras palavras, o racionalismo mórbido dum individuo. Essa soberba patologia do principio de casualidade que instala longas cadeias de razões por toda a parte entre seres e coisas que nada têm a ver uns com os outros. Assim, deixa de haver coincidências para passar a haver, apenas e só, golpes preparados e planos conspiratórios. Todavia, devemos ter em atenção a possibilidade dum deslize para essa ligeireza de estado emotivo que é a loucura. Seja paranóico, quase louco, mas vá com calma! Aproxime-se somente o mais possível dessa má interpretação, dessa má fé para com tudo e todos, mas sem nunca descambar para a psicopatia. Garanto-lhe que isto assegurar-lhe-á belos tormentos e outras tantas manias da perseguição. Senão, diga a si mesmo que a paranóia é apenas a versão extrema de uma tendência muito humana para criar quimeras negativas e que existem muitas outras, e ao alcance de todos. Atenção: não pareça louco quando está um pouco doido! Mais uma vez, vá com calma e doseie a sua paranóia. Seja mais introspectivo e dialogue mais consigo. Aproveite esse momento e converse com as vozes que escuta dentro da sua cabeça. Pode ainda manter uma audição bifurcada. Isto é: interprete sempre mal o que ouve, mesmo que a fonética nada tenha a haver com o que acabou de ouvir. Aliás, com o que pensa que ouviu. Por exemplo: se lhe disserem que é inteligente, perceba antes que lhe estão a chamar intransigente. Ou se lhe chamarem cabeçudo, interprete essa mesma injúria como: cornudo. Outro delírio que pode causar conflitos com os demais é levar tudo à letra. Por exemplo: se lhe pedirem para estar calado, então cale-se. Ou se, por todos os santinhos, lhe pedirem para não escrever um post delirante, então não escreva. E mesmo que esteja neste preciso momento a escrever um post paranóico, por favor, não tome isto a peito, mas pare imediatamente e coloque um ponto de exclamação no final!

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: La Dolce Vita » F. Fellini
para ouvir: Paranoid Android por Radiohead em Ok Computer
blogjob por shakermaker às 00:00

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De Danni a 6 de Setembro de 2007 às 16:50
Ena... já vi que és fã do Dr. Pio Abreu!! ;) Jinhos e bom fim de semana!
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