Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

saudade amolece

 

Não somos feitos com memórias perfeitas. À medida que o tempo passa, essa espécie de rendilhado vai-se desfiando, deixando para trás uns quantos fios. Um novelo que, se posteriormente tecido, reúne novamente todas as malhas. A nossa tapeçaria de memórias pode-se desvanecer ao longo dos anos – as cores podem desbotar, os pontos desfiar e até as fibras borbotarem. Pintar as cores para recuperar uma imagem do passado é o que temos que fazer. Mas como ter a certeza de que estamos a usar as tintas certas? Da mesma forma, à medida que vamos recuperando a nossa tapeçaria mental, será que estamos a bordar os pontos todos pelo sítio certo? E quanto ao borboto? Será que, mesmo assim, e apanhando-os um por um, recuperamos o mesmo padrão conjuntural doutros tempos? Por exemplo: quando vamos cumprimentar um antigo colega de escola que já não víamos desde que partilhávamos a mesma carteira na primária, a nossa memória saudosista é determinante na escolha das linhas que usamos. Por isso, o cumprimento que lhe fazemos é o reflexo da nossa nostalgia e, ao mesmo tempo, da nossa memória quente e feliz. Vai daí, damos-lhe um firme aperto de mão seguido dum abraço apertado e uma palmadinha nas costas. Porém, uns dias mais tarde, lembramo-nos o quanto ele nos lixava nas aulas e nos batia no recreio ou que por causa dele ficámos tantas vezes de castigo. Mas pior que isso: ficamos irritados e consternados só de pensar no que o outro ficou a pensar de nós. Continuamos a ser uns tansos.

 

Alguns dizem que as saudades degradam os pequenos ódios e fortalecem os grandes amores. Por exemplo: quando nos cruzamos com uma ex-namorada que nos fez a vida negra e com a qual perdemos os nossos melhores anos de vida, não resistimos em cumprimentá-la. É mais forte que nós, e lá ficamos de sorrisos de orelha a orelha como se nada tivesse acontecido. O mais curioso é que para cada pergunta que façamos – um ao outro – a resposta é sempre a mesma: está tudo bem. Mas não está nem nunca esteve! Contudo, a solução de ignorarmos o passado, não os cumprimentando ou até fingindo que não os conhecemos, não detém as saudades. A saudade só amolece o coração. E o principal responsável é o nosso cérebro que distorce essas nossas memórias, tornando-as mais apaziguadoras do tipo “não foi assim tão mau”. É mentira! Aliás, é pior do que aquilo que nos lembramos de mau se disso tivéssemos boas lembranças. Mais depressa a nossa mente nos faz lembrar de coisas que não aconteceram, inventando-as mesmo, do que nos faz recordar de coisas que realmente aconteceram. Então, e se está visto que não podemos confiar nos nossos cérebros, só nos resta os nossos esqueletos. Tiremo-los do armário! E da próxima vez que nos cruzarmos com um ex-colega, uma ex-namorada, um ex-patrão, um ex-amigo, ou um ex-qualquer coisa, dizemos-lhe das boas para que eles percebam que nós mudámos, que continuamos em mudança, mas que há uma coisa que nunca vai mudar:  não temos mais saudades deles!

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Tetro » Francis Ford Coppola
para ouvir: Sentimental Fool por Lloyd Cole em Love Story (1995)
blogjob por shakermaker às 00:00

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8 LINCHAMENTOS:
De tron a 5 de Agosto de 2010 às 16:13
tens toda a razão
De MB a 5 de Agosto de 2010 às 18:17
Refresco de limão para a alma.

Obrigada
De pitecos a 10 de Agosto de 2010 às 11:33
Ora viva!
Abaixo o borboto e quem o apoiar!
Um abraço do Zé
De Kristy a 20 de Agosto de 2010 às 15:28
Sem duvida!! É realmente curioso esta nossa capacidade de apaziguar as coisas com o passar do tempo. Já me tem acontecido algumas vezes passar por este tipo de situações e por mais que diga que da próxima há-de ser diferente...acaba por ser sempre igual. Sorriso nos lábios e um cumprimento com muita cortesia..e depois de voltar costas é que me lembro..F*"%#&$%%#&. Bjs
De voltasnocarrosseldainsonia a 27 de Setembro de 2010 às 14:31
Acho que a sua memória foi possuida pelo espirito da Madre Teresa de Calcutá.Quando me lembro dos ex- e outras pessonhas do género é com todas as raivas,maus momentos e úlceras estomacais que me causaram.Devo ser eu que sou ruim do inicio ao fim.

Isto é giro.Oferece se para ser linchado e desancado e tudo,que agradável :D

De Medeia a 29 de Setembro de 2010 às 11:20
Ora bem, eu até ía comentar. Sério, tinha mesmo vontade e tinha mesmo coisas para dizer. Mas como não tinha pressa, fui passando os dedos pelas lombadas dos títulos arrumados aqui ao lado. Como é possível?, pensei eu, deve ser engano. Mas não. Não mereci sequer a honra de figurar como estátua de cera ou bibelot de louça chinesa barata na tua prateleira. A memória é filha da puta. Já eu não sei bem de quem sou filha. Neste momento a minha roupagem é esta, não importa de onde venho. Ou importa, apenas na medida em que houve uma curva no caminho em que nos encontrámos. E eu nada signifiquei para ti?!
De almaebria a 19 de Dezembro de 2010 às 22:17
Passei por cá e tinha de dizer algo :)

Um abraço,...
De PrincesaVirtual a 21 de Fevereiro de 2011 às 12:44
Opá que desilusão...e eu a pensar que eras o unico que te mantinhas no «activo» :D...tão parámos???

desancar shakermaker

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