Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

do caixão ao berço

 

Do ponto de vista dum conceito de vida parece-me até fugaz. Afinal, é como viver ao contrário. Porém, não deixa de ser uma impossibilidade plausível de ser desejada ou, se tal fosse possível, ser experimentada. Na verdade, todos gostamos de quebrar algumas regras: não porque realmente acreditamos no "fazer à minha maneira" mas porque gostamos de ver o que acontece quando algo é feito duma maneira diferente. Quando vi pela primeira vez "O Estranho Caso de Benjamin Button", gostei do conceito do filme, da sua ideia base, e da perspectiva que nos dá sobre alguém que – tal como é dito na primeira frase – nasceu em circunstâncias pouco usuais. Acompanhar uma vida de trás para a frente, sobre um ser humano que regride na idade, provoca-nos – no mínimo – alguma curiosidade. Talvez por isso, e por mais mórbido que isto possa parecer, eu gostava de nascer morto. Sim, morto e enterrado. Calma, morto mas pronto a acordar. Soa algo estranho: um tipo morto acordar, mas há que quebrar regras. E esta ainda é só a primeira! A seguir, em vez de nascer dum ventre, gostava antes de nascer dentro dum caixão. Que estivesse sob uma campa no fundo duma cova. Gostava que alguém me exumasse, mas com cuidado pois eu já sou velho! Depois daquela lamechice toda em tirar fotografias com o velhinho, gostava de ser internado nos cuidados intensivos. Todo entubado, com fraldas, com algália, etc. Contudo, gostava de melhorar gradualmente: primeiro, na sala de recobro, e depois nos cuidados paliativos.

  

Gostava de ficar mais saudável a cada dia que passasse para depois receber "alta" e então internarem-me num lar. De preferência com bons aparelhos de fisioterapia para poder ficar rapidamente em forma. Depois levantava todas as minhas economias e comprava uma casa na "Santa Terrinha" e um Mercedes. A seguir, gostava de abdicar da minha reforma e começar logo a trabalhar. Enquanto despachava uns meros quarenta anos de trabalho, cada vez mais saudável e com mais genica, aproveitava para vender todos os meus bens. Todos, menos o Mercedes, pois vai-me fazer falta o banco de trás. Assim, teria mais dinheiro disponível para me embebedar com os amigos da faculdade e divertir-me com as amigas do liceu. Passava a ser cada vez mais promíscuo pois o tempo urge e estou quase a entrar para a preparatória. Então, e com muito menos responsabilidades, farei a primária para depois passar os dias que me restam a brincar – até entrar para o berçário. Aí, vou andar sempre ao colo o dia inteiro, e bastar-me-á chorar para alguém me alimentar, limpar ou reconfortar. Por fim, vou flutuar numa placenta só para mim, feita à minha medida e que aumentará a cada dia que passa enquanto eu vou encolhendo. E encolhendo. Passo de feto a óvulo fecundado, de espermatozóide a coisa nenhuma. Acabou! Assim se foi a minha vida ao contrário, e tudo o que resta de mim. Foi bom enquanto durou, mas agora irei desaparecer. Num orgasmo.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: (...) Benjamin Button » B.Pitt
para ouvir: Wake Up Dead Man por U2 em Pop (1997)
blogjob por shakermaker às 00:00

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