Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

a conspiração do semáforo

 

 

Quando está com pressa, os semáforos estão sempre vermelhos. Como é que uma coisa inanimada como um semáforo conspira conta si? Normalmente, no centro da cidade, os semáforos de um determinado número de cruzamentos estão todos coordenados. Os responsáveis pelo trânsito autorizam os carros a andarem até 50km/h e, assim sendo, se tiver atenção à velocidade, as luzes ficarão como por magia a seu favor. Eu próprio já experimentei passar por duas avenidas lisboetas ligadas por 10 semáforos, a uns calmos 50km/h, e verifiquei que à medida que me aproximava estes ficavam realmente verdes. Porém, quando estamos com pressa e aumentamos a velocidade, somos logo obrigados a parar ao sinal vermelho mesmo sem radares de controlo de velocidade. Mas o mais caricato, é que não nos contemos e assim que abre o sinal verde, arrancamos novamente com toda a velocidade até fazer os pneus chiar. Mas, mais uma vez, cai o sinal vermelho e voltam os pneus a chiar e também os travões a guinchar. Neste instante, se reparar com atenção, todos os condutores ao seu lado bem como os que estão atrás de si, olham com rejeição para o seu carro. Então, assim que abre o sinal verde, você volta a arrancar desalmadamente e consegue passar o próximo semáforo quando este ainda está amarelo – contudo cai o vermelho no próximo semáforo. Além de ser arriscado e perigoso, passar por um sinal amarelo não nos leva muito longe porque enquanto está à espera que abra o verde mesmo à sua frente, afinal abre o verde da intersecção anterior e todos os carros que deixou para trás anteriormente estão agora novamente do seu lado. Será isso um conluio?
 
Lembre-se, quando passa por uma sequência de cruzamentos com semáforos estes estão sincronizados, não para si mas sim para todos. Entretanto, fica outra vez verde e você torna a arrancar a toda a velocidade, deixando um rasto de borracha queimada dos seus pneus no alcatrão mas, claro está, cai novamente o vermelho e você volta a travar bruscamente e mais uma vez ficam marcas dos seus pneus no pavimento. Agora, adivinhe quem lá vem calmamente? Isso mesmo, os mesmos automóveis com os mesmos condutores que o acompanham nesta sua saga apressada há pelo menos 6 semáforos seguidos e que continuam a olhá-lo com desdém. Nesse instante, assim como quem tem uma miragem no deserto e vê um oásis, você vislumbra a última etapa de semáforos da avenida. Ao sinal verde, um novo arranque, mais chiadeira, mais borracha queimada, mais pneu gasto, mais velocidade e mais uma travagem tão desnecessária. Normalmente, no fim duma sequência de semáforos há uma passadeira para peões, e por vezes muito demorada. Como bom acelera, você está na faixa do lado esquerdo: geralmente, os peões atravessam do lado direito duma via para o lado direito da via oposta, embora todos o façam pelo seu lado esquerdo. Ou seja, vão sempre encontrá-lo algures a meio das duas vias porque você está na faixa mais à esquerda. Se circulasse calmamente pela direita, talvez não lhe fizesse tanta confusão o comportamento dos peões. Será que são eles que controlam estes semáforos?
 
Estando demasiado stressado e apressado, não consegue deixar de pensar em “porque raio é que ela não empurra o carrinho de bebé mais depressa” ou “só me faltava agora uma velha de bengala a arrastar-se”. Ao passo que se você estivesse calmo ou descontraído, talvez reparasse que está um sol maravilhoso ou como é bonito aquele edifício manuelino. E tudo isto ocorre nuns meros 15 segundos enquanto está verde para os peões e vermelho para os veículos: só que o seu cérebro já está repleto de teorias da conspiração acerca dos semáforos, dos outros condutores e dos peões que querem tramar gente apressada como você. Todavia, numa coisa poderá ter razão: existem mais probabilidades de encontrar um sinal vermelho do que um verde, a um coeficiente de dois para um. Os cruzamentos mais modernos têm sensores de velocidade e interruptores para os peões, por isso, os semáforos acabam por estar vermelhos cerca de dois terços do tempo. A mobilidade na cidade nada tem a ver com a sua velocidade, a menos que esteja a participar no grande prémio do Mónaco. Sendo assim, em vez de ficar stressado e cheio de pressa porque não pode de maneira nenhuma chegar atrasado àquela reunião de trabalho importantíssima, siga calmamente pela avenida. Desfrute da viagem, circulando pela direita ou atrás do autocarro mais demorado e apinhado da cidade. E ao chegar ao seu emprego, no momento em que o seu patrão o despedir pelo atraso, vai ver que ainda tem tempo suficiente para se enervar, stressar e praguejar,  e dar-lhe um enxerto de porrada com toda a velocidade!
 
Um abraço...
shakermaker
 
para ver: Driving Miss Daisy » M.Freeman
para ouvir: Fast Cars por U2 em How To Dismantle An Atomic Bomb? (2004)
blogjob por shakermaker às 00:00

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