Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

eu acredito no mosquito

 

Os insectos passam o dia todo a tentar sair das nossas casas e toda a noite a tentar entrar. De facto, os insectos são vítimas das incidências da vida como todos nós. O mundo complexo que criámos nos últimos milénios deixou-os algo atordoados. Não desenvolveram uma compreensão do vidro e, por isso, continuam a ser fiéis aos seus velhos modos de fugir de um sítio que seja escuro em direcção à luz. Foi um bom sistema durante duzentos milhões de anos – mais coisa menos coisa – mas agora dá-lhes algumas dores de cabeça, literalmente. Contudo, é inteiramente possível que, com o tempo, as moscas desenvolvam alguma forma de se verem livres do problema. Tal como os ouriços-cacheiros estão a desenvolver uma forma de reagir aos faróis dos automóveis ao fugirem para a berma da estrada em vez de se transformarem em bolas rijas de espinhos, as moscas poderão desenvolver um algoritmo matemático que lhes permita abandonar as nossas casas fazendo o mesmo percurso pelo qual entraram. Mas, por enquanto, as moscas vão-se ficar pelas marradas nos vidros das janelas. Seremos nós muitos mais evoluídos do que as moscas? A maior parte de nós, com toda a certeza, já marrou contra uma porta de vidro que não vimos e, por isso, podemos em certa medida ser também solidários com os demais insectos. Mas uma vez dada a marrada não continuamos, propositadamente, a marrar. Posto isto, não é de estranhar que os insectos nos pareçam desorientados na maior parte das vezes. Agora, eu acredito no mosquito – coitadito. Mas, então, porque é que todos os insectos tentam entrar à noite nas nossas casas, mesmo sabendo que têm tão poucas hipóteses de voltarem dali vivos? Várias alegorias românticas mencionam traças a mergulhar fatalmente nas velas, hipnotizadas pela sua luminosidade.
 
As evidências provam que tudo isto é um mito: vemos o que queremos ver, construímos uma ciência rica e plausível para o explicar mas ignoramos a evidência contraditória. Sendo assim, não há nada que nos impeça de fazer essa experiência. Basta acendermos simplesmente uma vela no nosso quarto e depois deixar a janela aberta. Os insectos voarão para dentro, mas não mergulharão na chama, ficarão antes quietinhos nas paredes do quarto, como uma multidão à espera que o espectáculo comece. E existem tantas teorias que explicam porque é que isto acontece, como as espécies de insectos que nos entram pelos quartos adentro. Alguns cientistas – nomeadamente os que não têm nada melhor que fazer – acreditam que as criaturas esvoaçantes confundem a luz nocturna com a Lua e tentam usar a sua luz própria para se orientarem. Outros acreditam que as traças, tal como os insectos diurnos, associam áreas mais iluminadas ao céu e á liberdade. Mas, mais uma vez, adormecem. Ou então, provavelmente, as traças fica somente ofuscadas pela claridade e não conseguem encontrar o caminho de volta porque tudo o resto lhes parece incrivelmente escuro e até vazio. Talvez um dia, quiçá, hajam psicólogos que se interessem exclusivamente por traças e consigam perceber porque reagem dessa forma. Ou porventura os psiquiatras descubram que afinal os insectos são completamente chanfrados. Porém, tudo isso são meras hipóteses para um mero mistério sem importância nenhuma. Até lá, podemos continuar a teorizar sobre o comportamento dos insectos: como por exemplo, as melgas que avidamente nos chupam o sangue. Além disso, fazem-no de noite quando estamos a dormir e nem damos por isso. No entanto, quando estamos acordados e deveras despertos, continuamos rodeados de melgas. Ok, podem até não nos chupar o sangue mas moem-nos bastante o juízo: principalmente, se for daquele tipo de melga que se deita connosco na cama. 
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: Gran Torino » Clint Eastwood
para ouvir: The Fly por U2 em Achtung Baby (1991)
blogjob por shakermaker às 00:00

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