Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

quem tem o gay na barriga?

 

Foi só recentemente que os homossexuais deixaram de ser loucos. Há muita gente que continua a pensar que o são, mas trata-se de homofobia e não de ciência. Com efeito, até 1973, a homossexualidade era considerada uma doença mental pelos próprios psiquiatras. Porém, caso a homossexualidade fosse de facto uma doença mental, seria de longe a mais generalizada. Calcula-se que entre cerca de 4% dos homens e 2% das mulheres sejam exclusivamente homossexuais. Embora minoritária, a homossexualidade está suficientemente enraizada no comportamento humano para que seja legítimo interrogarmo-nos a seu respeito. Em linhas gerais, existem duas escolas consoante a origem atribuída à homossexualidade: biológica (nascemos homossexuais) ou social (tornamo-nos homossexuais). Realizaram-se imensos esforços para demonstrar que a homossexualidade era de origem biológica: esforços esses guiados, em regra geral, por motivações ideológicas. Ou então emanavam de certos investigadores gay que pretendiam demonstrar uma especificidade homossexual que pudesse servir para reivindicar direitos, ou de investigadores mais ou menos homófobos obcecados pela anormalidade dos actos de sodomia ou mesmo de pederastia. Porém, algumas dessas hipóteses biológicas eram de todo descabidas mas nem todas forçosamente estúpidas. Talvez a mais imediata dessas hipóteses consiste em supor que o homossexual masculino segrega hormonas femininas (ou estrogénios) em excesso e a homossexual feminina possui hormonas masculinas (testosterona) também em excesso: anomalia esta que poderia por hipótese nascer no útero.
 
Só que, uma vez mais, a ciência tratou de pôr de lado essa hipótese tão remota pois os homossexuais não possuem nem mais nem menos testosterona ou estrogénios que os heterossexuais. Por conseguinte, não é fazendo curas hormonais que uma pessoa muda de género de freguês: bem podemos transplantar os testículos de um homossexual para um heterossexual que isso não o fará "atracar de proa". Como as hormonas não davam grande coisa, os defensores da biologia puseram-se à procura no cérebro. Houve até quem proclamasse a descoberta dum “gene rabeta", só que prontamente outros cientistas trataram logo de negar o achado amaricado. Para aprofundar mais um pouco a hipótese biológica, pode ser útil a observação de animais. As religiões desde sempre condenaram a homossexualidade porque esta seria “contranatura”. O argumento desmorona-se ao se demonstrar a existência de animais homossexuais. E, com efeito, os biólogos – uns gays, outros não – publicam com regularidade livros ou artigos revelando dezenas de casos de homossexualidade entre os animais. Todavia, é frequente vermos animais encavalitados uns em cima dos outros: ora para brincar, ora para fornicar, ou apenas para intimidar. Não esqueçamos que as zonas sexuais nada têm de sagrado para os animais. No fundo, tudo isto é complicado, e alguns cientistas não param de realizar estudos que desembocam, por vezes, em resultados surpreendentíssimos. Alguns dos quais tão absurdos ou mesmo inacreditáveis.
 
Por exemplo, a recente pretensão de que as mulheres homossexuais tinham o indicador mais curto que o anelar devido a uma velha história confusa de impregnação hormonal no decurso da vida fetal, e de que, inversamente, as mulheres heterossexuais tinham os dois dedos do mesmo tamanho. Mas, mesmo assim, importa desconfiar destas correlações. Porque, à conta das mesmas, também seria possível deduzir, a partir da verificação de que a maioria dos homossexuais possui um timbre de voz particular, que as cordas vocais condicionam as opções sexuais. Muitas pessoas esforçam-se por descobrir alguma explicação para a percentagem não muito grande de indivíduos que preferem o seu próprio sexo. Então, e porque não fazer o mesmo para os indivíduos que escolhem amordaçar a sexualidade, optando pelo sacerdócio? Nunca ninguém se pôs a investigar o gene do padre, o que prova que fazê-lo, no caso do homossexual, isso implica um preconceito ideológico. Talvez os homossexuais o sejam por gosto, tal como uma pessoa pode preferir a cozinha italiana em detrimento da cozinha portuguesa, sem que haja necessidade de investigar o gene da brusqueta ou o gene das pataniscas. A resposta não está na genética pois não temos o gay na barriga! Hoje em dia, é comum ouvir-se dizer que cada vez há mais homossexuais, embora as estatísticas comprovem que nem os há mais nem os há menos que nas últimas décadas, mas que constituem um número sem grandes oscilações.
 
Contudo, talvez estejam bem mais expostos porque aparecem muito mais na televisão: há programas de moda apresentados por gays, programas de culinária apresentados por bissexuais, séries televisivas sobre lésbicas e até desenhos animados com personagens de sexualidade duvidosa. Mas tudo isso é até bastante positivo: sim, nós só queremos mesmo saber quem são os homossexuais. Na verdade, há uns anos a esta parte, muitos heterossexuais têm dificuldade em discernir a sexualidade de outrem e por vezes envolvem-se em situações muitas vezes caricatas devido a isso. Os homossexuais com que nos cruzamos, na sua grande maioria, não têm uma característica física ou comportamental evidente que os distinga. No entanto, na televisão eles fazem questão de nos dizer que são homossexuais, nem que seja através de sinais que não deixam margem para quaisquer dúvidas. Quantos de nós já nos deparámos com aquelas situações em que ao vermos uma pessoa de costas, temos algumas dificuldades em perceber se é um homem ou se é mulher? Pior que isso: mesmo sendo do sexo oposto, se está para aí virado (!)
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: Milk » Sean Penn /Gus Van Sant
para ouvir: Vicar In A Tutu por The Smiths em The Queen Is Dead (1985)
blogjob por shakermaker às 00:00

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