Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

cravados na mente

 

É comum esquecermo-nos do prazer mas lembrarmo-nos da dor. Mas afinal o que esquecer e o que lembrar? Na verdade, é muito útil que nos lembremos de alguns dos nossos sofrimentos. Se nos lembrarmos das coisas más do passado temos hipótese de as evitar no futuro, obviamente. Muitos dos nossos traumas permanecem como que cravados na nossa mente para sempre. Por exemplo, as chamadas memórias “relâmpago”: quase todos nos lembramos onde estávamos e o que estávamos a fazer aquando do 11 de Setembro. Estas memórias foram armazenadas num sítio especial, a amígdala, um minúsculo caroço no centro do cérebro. A amígdala é, por assim dizer, a sede das nossas emoções mais básicas, em especial o medo. O cérebro permite que memórias vulgares pairem pelo córtex, sendo expostas às correntes erosivas do tráfego quotidiano da nossa mente. Com o tempo esgotam-se, mas as memórias de acontecimentos especialmente ameaçadores devem ser retidas e, por isso, a amígdala armazena-as bem à mão de semear para um acesso mais rápido. Enquanto as memórias vulgares desaparecem como manchas de tinta na pele, já as memórias traumáticas são como tatuagens – são permanentes. É certo que há biliões de memórias no sótão da nossa mente, apesar de muitas delas estarem já bastante recalcadas e esgotadas. Mesmo sendo reavivadas, terão então que ser restauradas de tão desactualizadas que estão. Mas ainda bem que as memórias se desvanecem. Vejamos: aqueles que se esquecem dum número de telefone entre pousar o auscultador e pegar numa caneta, não são de todo cabeças no ar. Por vezes, é tão-somente o nosso cérebro a separar o trigo do joio. Isto porque há certas informações que são tão pouco importantes que até merecem ser esquecidas. Porém, convém não esquecer o quão felizes nós ficamos quando nos conseguimos esquecer ou abstrair dos nossos problemas. Esquecer é tão importante quanto lembrar. Até mesmo uma dor insuportável, traumas e desolações têm de ser esquecidos em certos casos porque, se assim não fosse, todas as mães se recusariam a ter mais que um bebé de parto natural. As memórias têm diferentes tempos de duração: algumas são de facto muito curtas. Por exemplo, uma foda mal fodida tanto pode entrar e sair (mesmo a propósito) da nossa memória, como permanecer para todo o sempre. Por outro lado, o pensamento de como poderia ter sido bom ou de como foi possível ter sido assim tão mau, acompanha-nos por uma vida inteira. As unhas dos nossos amantes  memoráveis ficam marcadas na nossa pele, mas os calos dos amantes deploráveis ficam cravados na mente (!)
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: Eagle Eye » LeBeouf / Caruso
para ouvir: No Complaints por Beck em The Information (2006)
blogjob por shakermaker às 00:00

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