Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

7 e picos, 8 e coiso, 9 e tal

 

As pessoas do paleolítico só tinham um relógio: redondo, enorme, fora do alcance, bem lá no céu. Os seus dias eram regulados pelo Sol e não havia margem para batotice, nem havia forma de arranjarem um Sol falso para terem mais umas horitas pela noite. Portanto, quando o Sol dormia, eles faziam o mesmo. As primeiras tentativas para registar o tempo não foram muito ambiciosas quando os primeiros “cientistas” tentaram perceber quanto tempo durava um ano. Os egípcios, esses grandes chicos espertos, avançaram com 365 dias de duração. No tempo de Júlio César íamos em 365,25 dias e o malogrado calendário Juliano foi designado como padrão mundial em 46 a.C. Infelizmente, estava errado, o que até não era propriamente novidade pois os romanos eram, afinal de contas, extremamente estúpidos. Um ano dura, precisamente, 365,242199 dias. Assim sendo, o calendário Juliano estava errado em cerca de onze minutos por cada ano: quem os mandou serem precipitados? Embora possa até parecer razoável, mesmo para época, na verdade, nunca foi suficientemente bom. O calendário oficial começou a adiantar-se gradualmente em relação ao calendário real. Cerca de 1600 anos mais tarde, as pessoas do campo começaram a ficar muito preocupadas com a desordem nas estações do ano que, de facto, estavam desordenadas em onze dias. Então, em 1582, o Papa Gregório teve de admitir o erro e foram removidos onze dias do calendário. As gentes do campo ficaram furiosas, como é óbvio, por lhes terem roubado onze dias das suas vidas. Queriam-nos de volta agora mesmo – ou o que quer que “agora” queira mesmo dizer – e chegaram mesmo a ameaçar a Igreja com a possibilidade de lhes envenenar as hortaliças. Porém, lá acabaram por aceitar o novo calendário gregoriano, ainda que de má vontade. Em vez de envenenar as hortaliças destinadas aos mosteiros,  optaram antes por defecar nos vegetais reservados aos cardeais (!)
 
Mesmo depois de os relógios terem sido inventados, no século catorze, o tempo continuou a ser um conceito muito vago. Para que se tenha uma ideia, ninguém se preocupava em pôr nos relógios os ponteiros dos minutos pois não havia qualquer objectivo ou necessidade de o fazer. Então, os ponteiros dos segundos simplesmente não existiam ou sequer faziam parte das “horas”. A precisão do registo do tempo aconteceu, de um só golpe, quando Huygens inventou o relógio de pêndulo em 1656. Já com segundos e tudo! Finalmente apareceu um aparelho que conseguia precisar a duração de um dia de dez em dez segundos. Ainda assim, a maioria das pessoas regulava o seu dia pelo Sol e por palpite: logo, o meio-dia eram quando desse jeito que fosse. O que não deixava de ser uma habilidade do caraças para quem queria fazer do tempo o seu grande trunfo e principal aliado. Na altura, a maioria dos relógios apenas mostravam a hora local: como por exemplo, os relógios nas torres das igrejas. Mas a necessidade de registar as horas a nível nacional aconteceu com os caminhos-de-ferro, e já no século dezanove. Então, começou-se a coordenar os relógios das igrejas com os horários dos comboios para evitar que as pessoas vindas de Manchester chegassem uma hora antes da hora que deixaram Liverpool. Assim, todas as cidades de Inglaterra passaram a regular-se sempre pelo relógio de Londres. Todavia, e apesar de toda essa precisão dos relógios suíços, a nossa noção de tempo, por vezes, ainda continua a ser relativa: ora são os fusos horários, ora são os pensamentos otários. Todos gostamos de controlar o tempo, mesmo sem nos apercebermos que na verdade não o conseguimos: ainda que achemos que o fazemos. Mas é mesmo assim que vivemos: sabemos a hora local mas não sabemos se falta muito ou pouco para a hora real. Um homem com um relógio sabe que horas são, mas um homem com dois nunca tem bem a certeza. Mas anda lá perto (!)
 
Um abraço...
shakermaker
 
para ver: After Hours » Martin Scorsese
para ouvir: 11 O'Clock Tick Tock por U2 (1980)
blogjob por shakermaker às 00:00

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