Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

sobre uma questão de sono

 

Acordamos cinco minutos antes do despertador tocar: este é um óptimo exemplo da perversidade das incongruências nas nossas vidas. Mesmo antes do despertador tocar, os nossos olhos abrem-se e dizemos para nós próprios: “Boa, sim senhora, estou completamente acordado, pronto para saltar da cama, e ainda tenho cinco minutos para passar pelas brasas!”. Desligamos o alarme do despertador e aconchegamo-nos por um momento. A próxima coisa que voltamos a ouvir são os bombeiros a deitar a porta abaixo porque pensam que estamos mortos. Ora, não obstante haver sempre uma besta do nosso círculo de amigos, familiares ou colegas que pensam logo o pior e ligam para o 112, temos por natureza um “ritmo diário” que nos acorda durante o dia e nos põe a dormir pela noite. É um pouco diferente do nosso relógio neuronal: é mais um relógio químico, controlado pelo hipotálamo a partir das profundezas do cérebro. O hipotálamo faz com que à noite a hipófise segregue a hormona melatonina que causa inactividade e sono. O problema do hipotálamo é que está no centro do cérebro, onde tudo é escuro. É verdade, os nossos cérebros além de serem em certa medida ocos, também são escuros como se fossem poços sem fundo. Eu tenho um destes, para que conste. Como é que o hipotálamo consegue perceber se acertou nas horas? Será dia ou noite lá fora? Precisa duma janela para o mundo exterior e conseguiu, duma forma ou doutra, realmente arranjá-la. Emaranhou-se o melhor que conseguiu ao nervo óptico, que se encontra por baixo dele, no cérebro, e assim consegue abrir caminho para as actividades de algumas moléculas interessante na retina. É lá, nas células da própria retina, que um par de genes (ou será duo?) com nomes ligeiramente suburbanos, o TIM e o PER, estão atarefados na produção de moléculas proteicas denominadas, imagine-se, TIM & PER. A produção começa por volta do meio-dia e o trabalho continua até à madrugada seguinte, altura em que há tantas proteínas TIM & PER, que os genes com o mesmo nome idiota, TIM & PER, são completamente envolvidos por estas e obrigados então a desistir, parando assim de trabalhar!
 
Eu sei que isto assim, à primeira vista, pode até parecer um pouco confuso mas eu vou tentar explicar de maneira mais sucinta. Vejamos, depois deste processo, as proteínas TIM & PER começam, então, a desfazer-se até cerca do meio-dia, altura em que os genes TIM & PER olham em redor e percebem que têm novamente espaço suficiente para começarem de novo a fazer proteínas. Agora tudo parece bem mais simples, não é? Bom, este ciclo demorou 24 longas horas mas o aspecto interessante de tudo isto é que esta reacção é sensível à luz e regula-se pelo chamado “ritmo diário”. Como o hipotálamo escuta esta saga às escondidas, consegue acertar o seu ciclo por intermédio deste. Então, o ”ritmo diário” acerta-se, automaticamente, mesmo sem luz exterior: daí dizer-se que o TIM e o PER são absolutamente necessários para evitar a construção de erros a longo prazo. Ao mesmo tempo, o TIM e o PER são também uma espécie de música para os nossos ouvidos, tal é a forma como nos embalam durante o sono. Digamos que são tipo um duo de cantores folk mesmo à cabeceira da nossa cama. Mas toda esta malfadada explicação cai por terra quando viajamos. Pois é, os humanos não evoluíram para andar a saltitar pelo planeta pois o resultado seria uma perturbação do organismo devido aos fusos horários: que nos fazem adormecer a seguir ao almoço e, pontualmente, nos fazem saltar da cama à meia-noite prontos para tomar o pequeno-almoço. Desde que durmamos com as cortinas abertas, os genes TIM & PER conseguem resolver o problema e fazer com que o nosso “ritmo diário” volte depois ao normal: mesmo a tempo do voo de regresso a casa e de mais uma boa dose de confusão com o jet-lag. Sendo assim, e sempre que acordar antes do seu despertador, não o desligue. Agora que já sabemos que o hipotálamo é cego como um morcego desnorteado e estúpido como um galo desorientado, não podemos mesmo confiar nos genes TIM & PER. Não é que eles sejam más “pessoas” – que não o são de todo – ou mesmo que cantem mal como o raio que os parta: o problema é que eles não sabem ver as horas!
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: Burn After Reading » J&E Cohen
para ouvir: Times Like These por Jack Johnson em On And On (2003)
blogjob por shakermaker às 00:00

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