Domingo, 2 de Novembro de 2008

onde as boas ideias morrem

 

Nas empresas e nos governos há uma estrutura que tem a tarefa de garantir que tudo quanto seja feito preserve sempre a pureza do colectivo. Chama-se comissão. Segundo reza o mito, a tarefa de uma comissão é encorajar as novas, imaginativas e boas ideias a entrarem na sala dos fundos, onde são silenciosamente estranguladas. J. F. Kennedy, o presidente americano cujos restos dos miolos ainda estão espalhados por Dallas, baptizou as comissões de “doze homens a fazer o trabalho de um”. Já Hugo Chavez diz que as comissões são como “um grupo que conserva minutos e desperdiça horas”, enquanto Fidel Castro disse num pequeno excerto dos seus longos discursos que “se Colombo tivesse uma comissão de aconselhamento, provavelmente ainda estaria no cais”. Então, porque é que as comissões sofrem críticas tão más? A comissão faz parte do sistema imune duma empresa. As ideias novas são ao início consideradas perigosas e tratadas com imensa cautela, como se fossem um vírus. Uma comissão age como um nódulo linfático empresarial investigando a ideia alienígena. Mas é absorvida se parecer enquadrar-se na cultura empresarial, senão é então constantemente adiada para uma reunião posterior até que definhe e morra. Dizer que todas as comissões são desertos de alma é maldizer as muitas comissões que sabem para o que lá estão e funcionam extremamente bem. No entanto, quando um grupo não tem um ónus ou um objectivo preciso, uma ideia esplêndida pode andar perdida até ser desastradamente arruinada. É, ao mesmo tempo, muito democrático e furiosamente frustrante quando nenhum dos membros de uma comissão consegue dominar. Todos acedem, são favoráveis, imparciais e dão apoio, e no final encontram uma resposta que não pode de modo algum ser a melhor, mas que eventualmente poderá não ser a pior. Do mal, o menos: ponderam (!)
 
Ora, na última (e também única) comissão em que participei pude concluir que uma comissão é tão-somente um grupo de pessoas que não consegue decidir nada por si mesmo, mas que em conjunto consegue decidir que nada pode ser feito. Não obstante, também observei que à volta da mesa todos os intervenientes duma comissão têm a mesma certeza absoluta: aconteça o que acontecer, ninguém se pode comprometer. Digamos que a abordagem do problema é mais importante do que a sua solução. E se um problema origina muitas reuniões, essas reuniões acabam por ser mais importantes do que o problema. Não há propriamente um gene para o fenómeno das comissões. O método das comissões é uma herança que é passada de geração em geração. Em vez dos blocos estruturais de ADN fundamentais – como por exemplo a adenosina, a guanina, a cromatina ou o ribossoma – as comissões têm ordens de trabalho, propostas, aditamentos e quaisquer outros assuntos e moções para deferir. Quer a comissão faça parte da estrutura interna de uma empresa ou seja composta para um objectivo específico, deve, de quando em vez, digo eu, chegar a conclusões e não a alternativas confusas. Então, é precisamente aqui que um relatório repleto de jargões, modismos e certas frases optimistas frequentemente utilizadas – como “seguir em frente” e “delegar poderes” – esconderá a verdade. Além disso, projectará assim a cultura dessa empresa e acrescentará algumas mais-valias aos Curriculum Vitae (de alguns) como se fossem pãezinhos quentes. E no final de contas, os meios justificam os meios. Já era tempo de deixarmos de ser um país de comissões disto e daquilo, até porque uma comissão só chega a uma conclusão quando se cansa de pensar no que raio estão todos ali a fazer. Então, em conjunto, concluem o seguinte: “ – E que tal marcarmos uma nova reunião desta comissão para outro dia? ". Assim sendo, uma comissão é somente o lugar onde as boas ideias morrem (!)
 
Um abraço...
shakermaker

 

 

para ver: The Firm » T.Cruise /S.Pollack
para ouvir: Out Of Control por The Chemical Brothers em Surrender (1999)
blogjob por shakermaker às 00:00

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