Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

encontros no corredor

 

Os homens primitivos tinham territórios muito bem definidos. Nenhuma tribo rival se aproximava sequer da fronteira sem estar à espera de conflitos. Hoje em dia, à medida que o homem pós-paleolítico vagueia pela selva de betão, não tem bem a certeza da tribo a que pertence nem do limite das suas fronteiras. A raça humana, tal como a conhecemos, não se desenvolveu suficientemente depressa para lidar com este admirável mundo novo. Estamos na era das tribos urbanas com os seus próprios comportamentos, os seus códigos e os seus territórios bem definidos. Para os nossos antepassados pré-históricos, invadir o espaço alheio seria tido como um insulto e originaria confronto. O homem paleolítico nunca deixaria os seus congéneres entrarem no seu território sem uma boa luta. Mas hoje em dia tudo é diferente, pois partilhamos vários espaços comuns com os nossos semelhantes. Por exemplo: os corredores, onde temos que gramar com tudo e todos. Ora, os corredores são uma invenção deveras recente: passar por alguém num corredor obriga a uma aproximação, o que constituiria uma ameaça para o homem paleolítico. Por outro lado, o homem pós-paleolítico considera que cumprimentar ou não outra pessoa depende da sua vontade e é até sinónimo da sua liberdade: o que o homem paleolítico veria como uma nítida provocação. Actualmente, o homem moderno é livre de escolher quem pretende ou não cumprimentar e onde deve ou não de entrar. Porém, todos temos que cumprir e respeitar alguns procedimentos, designadamente quando nos cruzamos por corredores.
 
Corredomanha: é aquele momento em que duas pessoas vindas de sentidos opostos num corredor se aproximam, reconhecem-se e fingem que não se vêem. Deste modo evitam o terrível constrangimento de terem de continuar a olhar-se ao longo do corredor. Corredisfarce: é aquele momento crucial do falso reconhecimento num corredor muito longo. Apesar dos dois indivíduos estarem conscientes de que o outro se está a aproximar, têm ambos a certa altura de fingir um reconhecimento repentino. Olham-se com um sorriso cristalino como se porventura tivessem visto pela primeira vez (e estivessem particularmente encantados com isso) gritando “Olá! Tu aqui! Que surpresa!” como se dissessem antes “Raios o partam! Só me faltava este! Socorro!” Corretiqueta: a etiqueta nos corredores exige que, assim que tenha sido identificado um corredisfarce, tenha de ser então aplicada a corretiqueta. Assim, os protagonistas devem florear e rodrigar a abordagem com uma combinação constrangedora de alguns acenos, sorrisos abertos, expressões idiotas, caretas medonhas, esgares funestos e abanos de cabeça, fixando atentamente os olhos no outro fulano à medida que o sorriso se lhes esgota nas faces. Até que, para seu grande alívio e consolo, lá se cruzam finalmente. Correscondido: para evitar os malditos horrores da corretiqueta, é usado normalmente o correscondido. Este é um processo cobarde mas altamente engenhoso através do qual os protagonistas se continuam a aproximar: dando porém a impressão de que não deram um pelo outro. Olham absortos para os seus pés, sacodem pêlos ou migalhas da roupa ou estudam de perto as paredes como que duma grande obra de arte se tratassem. Corretrapalhada: a aterradora sensação de desmoronamento num encontro de um corredor longo quando os protagonistas imediatamente se apercebem de que se lançaram ao corredisfarce demasiado cedo e ainda estão a cerca de trinta metros de distância do seu termo. Ficaram atrapalhados com a ideia de estarem a ser correscondidos e decidem assim usar o corredisfarce porque se sentiram imediatamente ridículos. Contudo, foi nitidamente um erro crasso porque a corretiqueta fá-los parecer ainda mais escarnecidos. Corretadinho: palavra que descreve o género de pessoa que consegue fazer duma simples tarefa a maior das confusões, como por exemplo caminhar ao longo dum corredor. Correscritor: palavra que define um indivíduo sem qualquer imaginação e assunto para escrever. E vai daí, decide escrever sobre encontros no corredor.
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: Vertigo » K.Novak /A.Hitchcock
para ouvir: A Sort Of Homecoming por U2 em The Unforgettable Fire (1984)
blogjob por shakermaker às 00:00

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