Domingo, 12 de Outubro de 2008

ela dá-nos cabo da memória

 

Enquanto você subia aqueles degraus, a Scarlett Johansson descia a mesma escadaria. Ao cruzar-se consigo, você distrai-se, tropeça nos degraus, bate com a cabeça, desmaia por uns momentos e perde a memória. Depois de restabelecido, não se lembra de absolutamente nada e a sua memória como que apagou-se. Ora, as memórias são como que armazenadas em diferentes zonas do cérebro. Por exemplo: as memórias de como fazer as coisas, do tipo descer ou subir escadas, são armazenadas na hipófise. Já as memórias dos acontecimentos passados (certas escadas  que tenhamos subido ou descido anteriormente) são depositadas no hipocampo. As memórias de facto – ou de como é que essas mesmas escadas se pareciam – são espalhadas pelo córtex. Algumas memórias “emocionais”, como encontrar aquele último degrau que lá não devia estar, são ateadas na amígdala. Seria então conveniente que a nossa memória “factual” incluísse um inventário de quantos degraus havia nas escadarias por que já passámos. Contudo, é praticamente impossível armazenar todos esses detalhes de todas essas coisas. Se conseguíssemos quadruplicar o tamanho do nosso cérebro, então sim, nada nos surpreenderia por aí além e muito menos um qualquer degrau a mais. Sem essa espécie de extensão ao crânio, a que poderíamos chamar de sótão craniano, não temos de facto a capacidade de saber tudo. Porém, temos sempre a capacidade de acreditar que sabemos realmente tudo. Até lá, mesmo com ou sem a Scarlett Johansson no nosso caminho, o tal degrau a mais será sempre uma surpresa mesmo que acreditemos saber onde esse mesmo degrau está. Caso nunca tenha dado por isso, posso assegurar-lhe que entre a sala e o quarto a nossa memória varre-se-nos. Mas mais uma vez, ela vai dar-lhe cabo da memória (!) 
 
Vamos supor que está a trabalhar, na sua sala de estar, num projecto com pretensões artísticas, ou porventura eróticas, e deveras complicado, como por exemplo um retrato a óleo da Scarlett Johansson. Eu avisei! Todavia, tem as suas mãos tão imundas e pegajosas mas lembra-se que precisa duma coisa insignificante de outra divisão. Então, vai até ao quarto, pára de repente e dá consigo a perguntar: o que é que eu vim aqui fazer? Ainda há pouco, o seu cérebro estava preenchido com uma onda rica de sensações. Convenhamos, algumas dessas sensações seriam até lascivas, é certo, mas sobretudo estava impregnado com o cheiro da tinta, os sons de fundo, o toque dos materiais, a luz das lâmpadas e outros fluxos de emoções devassas à medida que o corpo da sua musa ia tomando as suas formas generosas. Eu disse generosas? Tem graça, estava aqui a pensar num outro adjectivo. Mas adiante! Os diferentes componentes edificam-se em partes distintas do cérebro: as visões no córtex visual, os sons no córtex auditivo, etc. Porém, estes estão ligados entre si através de nervos, só que não há nenhuma divisão do córtex que lhe guarde a lembrança do que estava há instantes a fazer. Há como que um esquecimento total. Por vezes, ajuda dizer em voz alta o nome do objecto que se vai buscar mas se isso não der resultado e você não consegue mesmo lembrar-se do que precisa do quarto, então volte para a sala e olhe para a sua pintura. Tudo bem, você não se lembrou do que ia fazer mas pode agora, perante a Scarlett Johansson deitada na sua tela, lembrar-se do que lhe queria fazer se tivesse oportunidade. E pode até contar com uma secção inteirinha no córtex do seu cérebro para armazenar a sua mais louca fantasia. Atenção: a mulher aqui exposta não é para consumo no blog mas pode substitui-la pela sua própria musa de carne e osso. Duma forma ou doutra, ela dá-lhe cabo da memória (!)
 
Um abraço...
shakermaker

 

para ver: In Good Company » S. Johansson
para ouvir: One Way Ticket To Paradise por Ian Brown em Solarized (2004)
blogjob por shakermaker às 00:00

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