Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008

toda a gente fantasia #01

 

É a rapariga indecisa e magoada nesse cedo desabrochar para uma realidade de expectativas e desilusões. Que na sua imberbe imaginação estende a cada sonho uma toalha de praia numa qualquer ilha deserta. A tal rapariga que tem um blog, um spot, um orkut e um Hi5 sempre repleto de pessoas a toda a hora e com quem se pode identificar: companheiros de naufrágio, amigos antagonistas, pessoas perigosas e duvidosas, tarados e complicados, e outros que ainda estão em metamorfose para algo melhor. É essa mesma rapariga que, procurando incessantemente na sua realidade indeterminada, pensa que finalmente encontrou os companheiros de aventura para com ela naufragar. É depois aquela mulher desiludida com o aborrecimento e a falta de inovação e vitalidade da sua vida. Essa mulher sedenta de amor e de paixão mas que, no final de cada dia, se sente quase sempre vazia perante a ausência de novos prazeres. Esta mulher que se sentiu obrigada a refugiar-se em romances de arlequim e fantasias ou contos de forçada satisfação. É a mesma mulher que, gastando uma imensa fortuna num pequeno nada, procura animar um dia desanimado com uma noite mal passada. É tal e qual como toda a mulher inquieta pelo futuro mas que observa a decomposição desse ambiente que a rodeia. A mulher que segura a pulso firme a maternidade, a família, o marido e o emprego: a sua única e verdadeira razão de felicidade e compensação por todos estes anos passados entre lapsos e falhas. É também a dona de casa que resignada com o seu mundo, entrega-se ao trabalho, esquecendo os seus sonhos pelo custo de uma vida. Aquela doméstica que nunca se nega em viajar através dum livro que a transporta para uma ilusão romântica da sua carreira abandonada e do falhanço do seu percurso ideal. É aquela mãe que, embalada pela sublimação, transmite agora aos filhos o seu próprio desejo de seguirem aquilo que não conseguiu. Enquanto houver sempre a mais ténue possibilidade de um dia tudo mudar, ela aceita o que lhe reserva cada novo dia e diz que é feliz assim. Toda a gente fantasia, é verdade. Aliás, a nossa cabeça está constantemente povoada de ideias – quase todas por acabar – e que, na sua maioria, nem chegamos sequer por acabar de as pensar. Porém, as mulheres tendem sempre a fantasiar mais do que os homens. Os homens também fantasiam, claro, embora quase sempre com o mesmo. E até está tudo compilado numa qualquer revista de automóveis, num simples jornal desportivo ou nas páginas da Playboy. Já a mulher, seja aquela ocasional fantasia sexual ou o mais louco devaneio – aquele acto arrojado ou o seu maior desejo tresloucado – tem sempre um comportamento alternativo à sua mercê: o seu escape. É como se estivessem sempre numa outra sintonia, num mundo só delas e que só elas entendem. A menos que não tenham uma regressão infantil: para as mulheres, fantasiar é quase tão importante como respirar. Vivem cada dia com a esperança de a cada dia fugir e, com maior ou menor sucesso, encetam a sua fuga incessante pela sobrevivência mesmo sem a firmeza duma partida nem a certeza duma chegada. Mas só fantasiam.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: One From The Heart » FFCoppola
para ouvir: Crumbs From Your Table por U2 em HowToDismantleAnAtomicBomb
blogjob por shakermaker às 00:00

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