Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

porrada de meia-noite #02

 

Quanto mais desgraças vejo nas notícias que passam nos nossos telejornais, mais concluo que o povo português é de longe o mais optimista do mundo. Não conheço nenhum outro que, mesmo perante os maiores infortúnios, diga sempre: “Bom, podia ter sido pior…”. Além disso, o povo português tem uma imaginação muito fértil, imaginando sempre os piores cenários possíveis para cada acontecimento. Numa colisão numa auto-estrada com vinte automóveis em que três capotaram, o português – como num passo de mágica – reporta o mesmo acontecimento alterando alguns pormenores. Por conseguinte, os mais importantes. Ora, o português ao contar a outro português, vai contar uma versão mais catastrófica da ocorrência: “Sabes lá, houve um choque em cadeia na A5 entre vinte carros, ou mais… Sim, dezassete capotaram, ou até mais, e apenas três ficaram inteiros, ou até menos…” Na verdade, para os portugueses, isto é perfeitamente possível pois já todos viram isso num filme do Steven Segal. Aliás, eu também já vi, logo podia mesmo acontecer. Creio que isto é uma maneira do português não ficar desapontado com o que aconteceu realmente. Vejamos: o Zé Tó conta ao Tó Zé que cinco ladrões assaltaram uma sucursal dum qualquer banco e que a polícia apanhou-os em flagrante e confrontaram-se durante mais duma hora em infinitas e arriscadas trocas de tiros, tendo por fim a polícia conseguido neutralizar os bandidos. Mais tarde, o Tó Zé vê nas notícias que afinal não eram cinco ladrões mas apenas um e que não houve sequer troca de tiros pois o ladrão ameaçou os funcionários do banco com uma bisnaga e que nem sequer foi apanhado pela polícia. Ao invés, aquando iniciou a fuga, tropeçou e torceu um pé, sendo então capturado pela polícia. Bem vistas as coisas, não se pode considerar que o Zé Tó mentiu ao Tó Zé. Não, o Zé Tó apenas exagerou um episódio que também lhe contaram já exagerado. Mas caso o Tó Zé decida contar esse mesmo episódio a outro compatriota, vai de certezinha também exagerá-lo (!) 
 
Nós, portugueses, temos esta mania de querer saber e querer ver tudo o que é acidentes ou desastres e, quando lá chegamos ou sabemos o que realmente se passou, afinal nunca é nada assim de especial como outros compatriotas o fizeram entender. Ora, é lógico que o português se sente defraudado pois criou, com essa história que outro lhe contou, uma enorme expectativa que não se concretizou. Daí o português dizer: “Bom, podia ter sido pior…”, porque na sua cabeça podia mesmo ter sido pior. Acho que os portugueses gostam de estar presentes nos locais onde os incidentes acontecem: sejam eles acidentes de viação, assaltos a bancos ou simplesmente no mesmo prédio onde os vizinhos tiveram uma briga de casal. Se um português não estava no local do ”crime”, pelo menos sente-se mais satisfeito quando passa por lá, no dia seguinte, apenas para “ver”. E mesmo se não o fizer, também se sente, na mesma, realizado quando simplesmente já passou por lá. Aliás, mesmo que um qualquer parente já tenha estado por ali: “Veja só, assaltaram a estação de serviço onde o meu irmão põe gasolina todas as semanas!”. Ele não esteve lá mas outro, que ele tão bem conhece, esteva. E isso basta-lhe para contar um dia mais tarde aos seus netos. Sim, porque podia ter sido pior, o seu irmão podia ter estado nessa gasolineira no momento exacto do assalto. Não nos podemos esquecer que o português já viu isso num filme do Steven Segal, e eu também. Tal como também sei o que acontece em todos os filmes aos irmãos do Steven Segal: acabam sempre por morrer, embora ele também acabe sempre por os conseguir vingar. A principal diferença entre aquilo que o português vê no seu quotidiano e o que acontece nos filmes do Steven Segal, é que em Portugal, nos dias que correm, as coisas estão francamente más mas nos filmes do “grande justiceiro” estão sempre muito piores. No fundo, os portugueses não querem saber o que realmente se passou pois estão muito mais interessados no que se poderia ter passado. E, de certa forma, estão certos. É que muitos de nós já assistimos incrédulos ao que se passou no filme “À Procura de Vingança”: aquilo foi porrada de meia-noite (!)
 
Um abraço...
shakermaker
 
porrada de meia-noite #01
 
para ver: Out For Justice » Steven Segal
para ouvir: Rough Justice por The Rolling Stones em A Bigger Bang (2005)
blogjob por shakermaker às 00:00

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