Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

nem cornos, nem sacanas

 

Estou agradado com a iminente aprovação integral da nova lei do divórcio pois agora é mais fácil livrarmo-nos desses estafermos, se de facto o forem, que vivem sob o mesmo tecto que nós e que dão pelo nome técnico de cônjuges. Porém, se os nossos “ex” forem, por outro lado, excelentes pessoas, também me agrada que se vejam livres de empecilhos como nós. Digamos que é um pouco como aquela campanha para substituição de electrodomésticos usados que anda por aí a ser publicitada: livre-se do seu mono, já! Até aqui, tudo bem: porque creio que duma forma ou de outra, todos ficamos a ganhar, aparentemente. Mas há um senão… Agora, a culpa morre solteira. Ou melhor, divorciada. Com a extinção do conceito de culpa, já não há mais cornos nem sacanas. Sendo assim, o adultério deixa de ser razão para alguém se divorciar e passamos, desde já, a dar mais ênfase a coisas tão mesquinhas tais como, por exemplo, um dos cônjuges cheirar mal dos pés. – Raios te partam, homem, os teus sapatos tresandam! Mais parecem dois queijos fora de validade, apre! Acabou! Vou mesmo agora à Internet preencher o formulário de divórcio! Mas, então, isto é lá razão para alguém se divorciar? Não seria mais sensato colocar os sapatos na varanda para apanharem ar e depois obrigar o marido a lavar os pés com amoniacal e sabão azul-e-branco? Esta questão de ser apenas necessário a vontade dum dos cônjuges para a dissolução do casamento, torna presentemente o divórcio em algo tão banal como fazer uma birra ou prender o burro por quaisquer assuntos sem a mínima importância. Até hoje, qualquer desaguisado entre um casal originava somente uns quantos palavrões proferidos aos berros entre os dois, ou na quebra dalguns pratos do serviço de jantar que ela tanto gosta por parte dele, ou simplesmente com umas quantas camisas dele atiradas pela janela fora por ela. Se é assim que vai ser daqui por diante, então acho que deviam fazer também uma nova lei do matrimónio. Já agora, exactamente pelos mesmos pressupostos: basta um querer para dois se casarem. Ou seja, poderíamos obrigar as nossas namoradas ou amantes a casar preenchendo, da mesma forma que no divórcio, um formulário pré-nupcial na Internet. Simples, não seria? – Oh filha, mas eu não quero casar contigo, tu nem sabes cozinhar um ovo estrelado! Vá lá, não me obrigues a casar contigo… Já te disse que além de seres má cozinheira, também tens um péssimo hálito? Estás a ver, devias reconsiderar… Mas de nada adiantava todos estes argumentos pouco abonatórios se, de facto, existisse uma lei similar para o matrimónio como existe agora para o divórcio, Bastava um dos dois querer para o outro, obrigatoriamente e supostamente, por lei ter que ceder. Mas também não haveria qualquer problema pois, exactamente da mesma maneira, um dos dois recém cônjuges poderia interpor de seguida o divórcio com a mesma rapidez com que se casaram. Isto sim, seria a verdadeira igualdade de oportunidades. E talvez a maneira mais eficaz para retardar uma eventual vontade de separação, seria tão simplesmente abstermo-nos de ter Internet em nossas casas. Sempre funcionava como um meio dissuasor após um conflito conjugal e serviria também para ganhar mais tempo ou tentar mesmo fazer as pazes. Todas estas questões, inerentes ao matrimónio ou ao divórcio, preocupam-me. Não que eu esteja a pensar casar-me ou divorciar-me, nada disso. Até porque para experimentar esta nova lei do divórcio, teria então que casar-me primeiro. Todavia, nunca se sabe. Sim, eu gostava de casar-me via Messenger, com live-web-cam e tudo. Deveriam ser permitidos os casamentos pelo registo civil on-line, em que as testemunhas pudessem assistir à cerimónia em rede. Seria inesquecível: um de cada lado a trocar mensagens instantâneas de amor eterno, no momento. Pelo menos, até alguém se aborrecer e preencher o raio do formulário de divórcio na hora!

 

Um abraço...

shakermaker

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