Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

cada macaco no seu galho

 

O nosso sistema social é exactamente igual ao sistema social dos macacos. De galho em galho ou de ramo em ramo, todos almejamos alcançar o topo das hierarquias ou simplesmente o cimo das árvores. Ora, sempre que há hierarquias e devidas assimetrias nas nossas relações de poder, haverá inevitavelmente técnicas, comportamentos, estratégias – chamem-lhe o que entenderem – que ajudam ao avanço individual na ascensão dessa mesma hierarquia. Na natureza, tal como na vida, uma estratégia de submissão pode ser vencedora. Ou seja, um animal pode ter de ceder parte da sua comida e curvar a cabeça, pois isso evita batalhas, provavelmente com ferimentos, perante os animais mais poderosos para se decidir quem será afinal o macho alfa. Alguns machos, perfeitamente cientes das suas capacidades, ou da falta destas, fazem logo um cálculo muito rápido perante eminentes situações de confronto: é melhor encontrar um lugar seguro, esperar pacientemente, e apanhar os restos depois. Então, escondemo-nos na nossa toca, ou ficamos sossegados e pendurados nos nossos ramos, até que chegue a monção. O medo não significa necessariamente falta de coragem, bem pelo contrário: o medo nem é tanto receio mas respeito pelos demais. Na selva, como na vida, há que respeitar as hierarquias. A hiena com a zebra; o leão com a gazela; a jibóia com o macaco, todos medem forças consoante as suas capacidades físicas ou psíquicas. O porte não é tudo caso não seja utilizado de forma inteligente. Os mais fracos sabem-no e não estão dispostos a ceder sem primeiro lutar: nem que seja com a força da sua psique. E é desta forma que constroem os degraus para subir nessa escada que chamamos hierarquia. Mas a hierarquia tem um senão: por vezes, não chega toda a nossa determinação nem mesmo toda a nossa bravura. Há que estabelecer parcerias, calculadas e calculistas, de sujeição obediente ou de consentânea submissão. Eis os lambe-botas! O lambe-botismo é uma técnica só ao alcance do mais obstinado dos bajuladores. Os que não dão graxa, só têm uma solução para conquistar o lugar de quem o conquistou primeiro mas a bajular: porem-se na fila. Ou melhor, num ramo mais abaixo, aguardando a sua vez: seja para lhe tomar a posição por sucessão ou para conquistar uma posição ainda mais elevada por bajulação. Parece confuso, não é? Porém, é até bastante simples. Vejamos: imagine uma árvore cheia macacos de um lado para o outro, de ramo em ramo, irrequietos. Aparentemente, aos seus olhos, os babuínos estão somente desorientados, mas se reparar com atenção, estão todos apenas a abanar a árvore. Porquê? Nada mais simples: ao fazê-lo, não só impedem os seus semelhantes de se fincarem num galho mais soalheiro, como também lhes atravancam qualquer possibilidade de chegar ao topo da árvore. A solução mais eficaz para estancar esta guerra de poleiro seria cortar o mal pela raiz. Ou seja, cortando a árvore. Mas isso, além de ser um atentado contra-natura, seria também um atentado social. É que a nossa sociedade, para o bem e para o mal, sempre foi feita de hierarquias. Não obstante as respectivas desigualdades sociais, este continua a ser o sistema social que consegue manter-nos mais unidos: apesar de estarmos cada macaco no seu galho. Todavia, mesmo com todo este nosso egoísmo ou egocentrismo, as nossas espécies sobrevivem e prosperam pois doutra forma seria o fim da macacada.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: InTheValleyOfEllah»T.LeeJones
para ouvir: Deep Pile Dreams por Ian Brown em Unfinished Monkey Business
blogjob por shakermaker às 00:00

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5 LINCHAMENTOS:
De noivo a 11 de Fevereiro de 2008 às 17:20
coitados de nós sem as macacadas:)
De Sílvia Sunshine a 11 de Fevereiro de 2008 às 19:24
Considerações sempre bastante importantes... :)
Boa semana!
www.sunshine.blogs.sapo.pt
De erotic spirit a 12 de Fevereiro de 2008 às 14:43
Never thought of it in such terms but very well observed.

:)
De shelyak a 12 de Fevereiro de 2008 às 19:18
Para mim, uma das tuas divagações de que mais gostei, pelo peso que nos nossos dia-a-dia.
E o medo que dizes... não é receio ou falta de coragem mas sim respeito...muito bem observado. Costuma-se dizer que só os loucos não têm medo. Todos temos, só que os "valentes" controlam-no e gerem-no; os outros, fogem.
Parabéns, rapaz :)
De Ria a 12 de Fevereiro de 2008 às 21:45
Ora vê-se que pensaste grandemente acerca de tal assunto :-) o raciocínio

desancar shakermaker

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