Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

um chato na primeira pessoa

 

Ao fim e ao cabo, a vida de um chato é uma pasmaceira. Estou sempre agarrado ao meu pêlo, a vigiar os meus ovos. Desço quatro vezes por dia para sugar um pouco de sangue e, depois de ter aumentado de peso várias vezes, digiro. Nem sequer tento passear. De resto, como o faria? Não salto como as pulgas e ando pouco. Na verdade, sou lento como um caracol. Além disso, fora de um corpo humano, não sobreviveria mais que umas horas. Logo, faço por passar despercebido e a vida corre-me bem. É evidente que não posso impedir o meu anfitrião de se coçar. Porém, como não transmito doenças, ao contrário desses piolhos estúpidos que pegam o tifo, não vou ser exterminado tão depressa. Já para não dizer que sou um às da camuflagem. Vejam só o truque de mestre: só engulo líquidos, mas livro-me de toda a água em excesso de modo a soltar pequenos excrementos sólidos que caem por si, em vez de fezes líquidas que deixariam vestígios ou possíveis pistas quanto ao meu rasto. Inteligente, não é? Pois é, eu sei. Ainda assim, tenho problemas de vez em quando. No outro dia, estava eu tranquilamente instalado no quentinho de um testículo, dormitando beatificamente, quando vejo avançar sobre mim uma enorme estaca, que por pouco não me derruba do meu pêlo! E logo de seguida, surge mais outra estaca! E ainda uma terceira! Não tardam a ser dezenas delas, a agarrarem-se umas às outras, a entrechocarem-se, a entortarem-se, e tudo rangendo como um furacão! Depressa percebo o que se passa: eram dois enormes tufos de pêlos misturando-se. Então percebi que o porco do meu anfitrião se preparava para ter relações sexuais. Por sinal, com uma grandiosíssima porca também com parasitas que me invadiram a púbis.

 

Ora isso, para mim, é um perigo dos diabos. Sabem muito bem que vivo exclusivamente no púbis, o que quer dizer que esse meio me convém, mais que qualquer outro. Então, têm de compreender que, quando chegam a vias de facto, seus porcalhões, por vezes há posições que me incomodam. Pondo as coisas em pratos limpos, neste caso em lençóis lavados, o coito não é mais que uma luta entre púbis contra púbis. Já para não falar no 69, outra grande porcaria, em que o coito é praticado entre púbis contra barba ou, nalguns casos, entre púbis contra bigode. Para o comum dos humanos, isto talvez não seja nada de mais, mas para mim significa muito. Porque, no coito, não há cá confusões: posso estar à vontade, pois caso me desequilibre do meu pêlo, o pior que me pode acontecer é trocar de cuecas. Na pior das hipóteses, substituo o meu colchão entalado entre testículos por um colchão entalado entre lábios. À primeira vista, a troca até parece mais vantajosa pois sempre tem melhor aspecto, porém tem um inconveniente: a humidade. Mas lá está, pelo menos fico num meio que me serve perfeitamente. Desde que tenha uma boa camada de pêlos, para mim é suficiente. Até aqui, tudo bem. Mas se os porcos praticarem o 69, vejam só a minha vida! Corro o risco de dar por mim numa cabeça, raios os partam! É que eu não vivo lá em cima! Ponham isto na vossa cabeça: lá em cima vivem os piolhos, porra! Têm de compreender que a minha sobrevivência depende do meu talento para discernir uma verdadeira cabeça de uma coisa com pêlo. É que vocês, humanos, distinguem facilmente uma passarinha de uma guedelha, mesmo quando as vêem de longe. Os pêlos são curtos, enquanto os cabelos são compridos: assim é fácil.  

 

De acordo: é fácil para vocês. Mas eu, ao meu nível, à minha escala, não noto essa diferença. Não tenho a vossa perspectiva global da pilosidade e vejo apenas uma pequeníssima parte do matagal. Logo, preciso de ter uma ideia precisa e, sobretudo, rápida, porque a situação é deveras escaldante. Falando a sério: aposto que duvidam que eu tenha critérios para estabelecer a diferença entre um pêlo e um cabelo. Não, não é a visão como no vosso caso. Sou praticamente cego, mal conseguindo distinguir a luz da obscuridade. O olfacto, ainda é pior. À temperatura, em contrapartida, sou sensível. Sou mesmo um às! Imaginem que detecto diferenças de um mísero grau: aliás, é isso que me permite abandonar o meu hospedeiro se ele estiver com febre ou a bater as botas. É evidente que umas cuecas são mais tropicais que um crânio. Contudo, não é fácil dar conta disso num décimo de segundo, mesmo em cuecas femininas. Para terem uma ideia, mirem o bicho: 1,5 milímetros de comprimento e 2 milímetros de diâmetro. Tenho um tórax muito curto e quatro belos pares de patas, que são o meu ponto forte. São poderosas e compactas mas não servem para me agarrar a qualquer coisa. Uma bela crina púbica, bem cerrada e bem espessa, até a fisgo. Mas os cabelos, fininhos e enfezadinhos, são impossíveis pois escorregam. É verdade que agarro por vezes um pêlo do peito ou da axila mas, com o 69, já dei por mim a ter de me agarrar afincadamente a uma pestana. São quase tão espessas como os malditos pentelhos do rabo! Em suma: a vida dum chato não é fácil porque os humanos ainda a tornam mais difícil. Nunca vi gentinha tão promíscua, sempre enfiados nas cuecas um dos outros! (E depois eu é que sou o chato…)

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Existenz » David Cronenberg
para ouvir: Inertia Creeps por Massive Attack em Mezzanine
blogjob por shakermaker às 00:00

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6 LINCHAMENTOS:
De Madalena Lopes a 30 de Novembro de 2007 às 00:31
Olá Sir
O que eu já me ri com este post Adoro o seu sentido de humor. Sempre inteligente e mordaz nos mais variados assuntos por mais absurdos que possam ser. Numa palavra: genial
Beijos
De noivo a 3 de Dezembro de 2007 às 15:04
eehehe no teu melhor:) ainda tenho o sorriso nos lábios! vivam os chatos:)
De Danni a 3 de Dezembro de 2007 às 17:03
Tá aqui um texto bem esgalhado! eheheh. Nunca tinha pensado nisto na perspectiva do pobre chato! E os mauzões dos humanos sempre a dificultar-lhe a vida! eheheh. Boa semana!
De Vanessa a 4 de Dezembro de 2007 às 00:28
Olá Shaker, pensavas q te vias livre assim de mim?! Mas não, voltei lol Então agoras és um chato? Quem diria... Podes chatear-me à vontade q eu deixo. Mas não abuses! ;) jinhos
De Manefta a 4 de Dezembro de 2007 às 13:49
Ora viva Caro Shakermaker!

Homem...menos! Muito menos por amorzinho a deus...trate-se rapidamente.
Pesquizar e entrar na cabeça de um chato...? Para? lol Pronto, no final a da pestana e a dos pintelhos do rabo teve graça lol mas fora isso...ka nojo lol
Ainda por cima é um chato que vivia na pubis de um homossexual...o que se fizer bem as contas, em relação à dinâmica das estacas, prova que a sua história foi inventada por si e não é, de facto, um relato de um chato. Coisa feia caro Shaker lol
Bom...sendo eu um cliché de gaja deixo aqui aquela lenga lenga do chato, em homenagem a este texto...
É chato? Coça. Coça faz ferida, faz ferida vai ao médico, no médico paga, é chato...
Sinto-me incrivelmente estupida bem a combinar com este texto lol fora isso...homem tenho saudades suas, espero que esteja bem, eu também.

Um beijo,

Manefta
De XupaNuPipi a 5 de Dezembro de 2007 às 02:05
Mano, primeiro parabenizar-te em atrasado, mas estou perdoado tu tambem te esqueceste que somos quase do mesmo dia, lol..sópodia mesmo! Chatos, pois, desde que estivemos com aquelas miudas que sabes que nao me aparecem coisdqas dessas.A velhota ate nos arranjou aqueles remedios caseiros...continuas impagavel mano, a velhota tem razao de se embevecer quando fala de ti.Um abraçio mano e felicidades para ti Shaker Beijo ou abraço .-))

desancar shakermaker

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