Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

(quase) tudo sobre lisonja

 

Para conquistar uma mulher, tudo o que se precisa é de muito amor e de um bom dicionário de rimas. Esta bem poderia ser a fórmula exacta que os homens tanto procuram, mas não é. Trata-se apenas duma frase avulsa da minha autoria, logo sem qualquer credibilidade. Porém, a lisonja sempre foi a principal arma do conquistador e desde sempre adoptei o sábio conselho que diz: elogia a bela pela sua inteligência, e a inteligente pela sua beleza. Só ainda não consegui compreender como me devo comportar diante de mulheres belas e inteligentes ao mesmo tempo. O que até me dava um jeito do caraças pois é este o tipo de mulheres que mais me atraem e que normalmente me caiem no colo. O problema é que não consigo ser um lisonjeador romântico como deveria ser, do género dum Giacomo Casanova ou mesmo dum Cyrano de Bergerac. Seria muito mais fácil se eu fosse um verdadeiro trovador, daqueles de cítara e tudo, para dar música ás donzelas. Mas não sou, o que é uma pena. Até porque todo o tipo de lisonja é útil para a sedução de qualquer espécie. O próprio som do elogio é bastante melodioso e, como técnica sexual, a lisonja é habitualmente um instrumento masculino.

 

Digamos que a lisonja sexual tem um propósito muito simples: persuadir uma mulher a fazer algo que não o fará doutro modo. A estratégia do sedutor é mesmo muito básica: fazer com que ela goste dele (ou nele confie) dizendo-lhe qualquer coisa sobre ela. Então, no subconsciente do sedutor, este pensa que ela irá recompensá-lo indo logo para a cama consigo. Isto porque a lisonja do homem procura romper qualquer contra-estratégia que a mulher possa ter, e que ele presume que seja para o recusar. A estratégia romântica é, digamos assim e metaforicamente, concebida para ser a chave da porta trancada, a combinação do cofre ou a desculpa para violar o código. Desde um homem dizer a uma mulher que esta tem os olhos mais lindos que já viu, ao comentário em voz alta do operário de construção civil “Que grande rabo!” para uma mulher que vai a passar, vale tudo para conquistar e chamar a atenção duma mulher. É claro que esta primeira estratégia tem mais probabilidades de ser bem sucedida que a segunda. De facto, nunca se sabe ao certo se esse piropo é para conquistar a mulher ou o apreço dos outros trolhas. Logo, toda a lisonja que vem do cimo dum andaime é deveras dúbia.

 

Fazer conversa sedutora sugere romance e também, é claro, sedução. Hoje, geralmente não fazemos a distinção entre as duas ideias, a não ser sugerir que o sedutor é grosseiro ou burgesso. Mas isso é porque vivemos num tempo em que a linguagem do amor é a retórica do romance. Omitimos o sexo no romance de uma forma que os antigos não poderiam conceber. Durante muito tempo, a lisonja sexual precedia a lisonja romântica. Os homens cortejavam as mulheres para conseguir o que pretendiam delas: sexo. O amor pouco ou nada tinha a ver com isso. Já dizia a Tina Turner em “What`s Love Got To Do With It”. Posteriormente, os homens seduziam as mulheres fingindo estar apaixonados por elas, mas isso só aconteceu depois do convencionalismo do amor romântico se tornar universal. Ou seja, agora os homens já sabem que podem acrescentar mais umas quantas palavras para além das frases já mais que batidas: que lindos cabelos tu tens ou que bem que falas estrangeiro. É certo que os clichés têm que começar numa altura qualquer e muitos dos nossos clichés começaram com a lábia dos antigos trovadores. Porém, é difícil distinguir a sua originalidade porque tudo isso nos soa cada vez mais familiar.

 

Vivemos numa época em que se produz em massa o sentimento que foi imaginado primeiro pelos trovadores pois foram estes que escreveram e tornaram famosa a lisonja dum conquistador. Uma das mais bem sucedidas formas de lisonja envolve o sofrimento do seu trovador. De facto, os amantes mais infelizes têm uma dor mais agradável ao ouvido. No meio dessa sua angústia, o seu coração torna-se ainda mais apaixonado. Logo, ao abordar uma mulher com aquela lenga-lenga do coitadinho, ele têm boas hipóteses desta lhe dar colinho. As mulheres gostam de sentir que os homens precisam delas e, para isso, não há nada melhor que um homem mansinho que procura carinho. E os homens sabem que assim é pois mal tenham uma nesga de oportunidade, vão querer com certeza bem mais que uma festinha no rosto. Talvez uma festinha mais abaixo da cintura, de preferência. Além disso, qualquer iletrado que nem consiga juntar duas palavras para fazer uma simples frase, tem sempre a possibilidade de decorar frases feitas. Como por exemplo, servindo-se de uma qualquer letra dos Beatles. Na verdade, basta traduzir o ”Love Me Do” para português que elas ficam todas derretidas. E, já agora, acrescentar que fomos nós que inventámos qual apaixonado trovador.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Falling In Love » RobertdeNiro
para ouvir: Let There Be Love por Oasis em Don`t Believe The Truth
blogjob por shakermaker às 00:00

ISOLAR POST | RECOLHER POST
De Marisa a 20 de Junho de 2007 às 09:38
Caro Shakermaker,
Ía jurar que se inpirou no meu texto... presunção a minha!
É engraçado o jogo da sedução, dos temas mais abordados por tudo o que é sitio e ainda assim um desconhecido.
Qualquer que seja o piropo que me dirijam, eu acho piada, se não for por mais nada, pelo simples facto do senhor se dar ao trabalho de o fazer e depois se ele o faz por acha piada, ele e os restantes trabalhadores, porque não posso achar eu?
Rimo-nos todos e eu vou à vida.
Mas acho que não era disto que falava o texto...

Um abraço,
Marisa
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