Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

a minha pequena

 

Sabes, não me conformo ao ver-te aqui deitada e eu sem poder fazer nada. Se ao menos eu soubesse como te sentes talvez ficasse mais descansado e saberia ao certo se vale a pena ficar aqui do teu lado. Como deves calcular, eu tenho coisas mais bem interessantes para fazer do que ver-te padecer ou porventura sofrer. Não é que eu não queira mesmo aliviar o sofrimento, mas preferia estar noutro lugar do que neste bloco de internamento. Já reparaste como esta sala cheira mal e como parece mórbida sem claridade suficiente para sequer poder ler o jornal?! Ainda por cima não deixam sequer abrir uma janela, pois sempre podia apanhar um pouco de ar ou até mesmo fumar um cigarro. Não vejo a hora de terminar a hora da visita pois só vim aqui perder o meu tempo. Tu não reages a nada do que te digo. Eu bem tento despertar os teus sentidos como me pediu o médico mas tu não estás a colaborar em nada.

Está tão impávida e serena, a minha pequena.

 

Querida, será que quando tu acordares ainda me vais reconhecer? Pode ser que tenhas uma amnésia ou daquelas crises de identidade após recuperares do coma. Eu até suporto que não te lembres de mim pois da mesma forma também esquecerias todo o mal, que dizes, que te faço. O que na verdade foi sempre um exagero da tua parte pois levas muito a peito tudo o que te digo da boca para fora. Meu doce, eu estava a brincar quando disse que te partia os dentes todos. Achas mesmo que eu seria capaz de tal coisa? Logo a ti que tens uns dentes tão perfeitos e tão bem tratados. É o que eu me canso de te dizer: não devias fazer caso das ameaças que te faço quando estou irritado. Até porque, bem vistas as coisas, a culpa é tua pois chateias-me a cabeça com as tuas crises de ciúmes. Por falar nisso, acho que vou chamar aquela enfermeira toda boa para pentear o teu cabelo ou limpar o teu rosto tão lindo.

Está tão pálida e melena, a minha pequena.

 

Amor, até quando vais permanecer nessa inércia sem qualquer sinal de melhoras? Acredita que não tenho feito outra coisa nos últimos dias senão ficar enclausurado neste hospital esperando que me dês mais do que esse ténue sinal de vida. Já estou a ficar cansado com tudo isto e – se o teu estado não se alterar – vou deixar de te visitar. Talvez não te tenhas apercebido, mas houve alturas em que até cheguei a desejar que morresses ou simplesmente desaparecesses. Todavia, nunca quis que sofresses como aparentas estares a sofrer. Sempre te almejei uma morte súbita e pouco dolorosa... Eu próprio, e mais do que uma vez, pensei em fazê-lo, porém não quis sujar as minhas mãos com o teu sangue. Mas isso pertence ao passado, do tempo em que me fazias a vida num inferno. Entretanto, redimiste-te, e posso dizer que por vezes até me fazes feliz. Será que já disse que hoje estás muito bonita? Estás linda! Tenho saudades de fazer amor contigo. Por mais que te possa parecer absurdo, sinto o calor do teu corpo em contraste com a frieza do teu coração.

Está tão temperada e amena, a minha pequena.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Another Woman » Woody Allen
para ouvir: Girlfriend In A Coma por The Smiths em StrangewaysHereWeCome
blogjob por shakermaker às 00:00

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18 LINCHAMENTOS:
De Morgaine a 25 de Março de 2007 às 17:11
credu... já me pergunto se não foste tu que a puseste assim...
Pensando bem,literalmente, até foste tu.
Está escrito de tal modo que parece um filme.
De nena a 25 de Março de 2007 às 18:56
Estás tão impávido e sereno meu piqueno..
quem te terá posto neste estado
minha alma levada do diabo?
será que ficas assim pró resto dos teus dias?
e lá se acabam assim
tantas taras e manias?
olha; talvez te mande embalssamar,
mas pra isso
vou ter que te matar.
mas antes ainda te dava uma queca
tás de pau feito, é de aproveitar
é treca,lareca,leca..´
será a ultima, pois vais-te finar.
que pena..que pena que eu tenho de ti
acabou-se-te o pau\ tás 1 morto tão lindo,
vá lá..só mais esta vez..e sorri.
De Mariana a 26 de Março de 2007 às 09:46
Os homens confrontados com o sofrimento: ficam tontos, inumanos por serem confrontados com coisas que não controlam.
Vai haver um dia em que a frase 'a minha pequena' vai ser trocada por 'o meu pequeno'.
E aí ela (a tal de 'a minha pequena') vai comportare-se como gente: acompanhar, ter paciência e preferir a companhia dele à de um cigarro.
De PrincesaVirtual a 26 de Março de 2007 às 10:24
Eu já tinha lido isto... não consigo comentar...
Está um texto fantástico...mas é atroz de mordaz.

Beijos Sir :) ;)
De nena a 26 de Março de 2007 às 13:55
olha man,..tás feito!..não viste aquela que teve em coma 16 anos e acordou durante 1 semana?..mas pior ainda é que não vão poder desligá-la não vá ela acordar daqui a outros tantos anos.
é como eu te digo,..tás feito ó bife!!
vais ver que prá velhice tens companhia..
De Cláudia Oliveira a 26 de Março de 2007 às 15:33
Ainda dizem que sou má...
Tu ganhas-me.
De Daniela a 26 de Março de 2007 às 16:21
Gostei imenso do contraste de ideias do ultimo paragrafo em relação aos outros...

Como sempre, os teus textos são mto satisfatórios.

De Moura ao Luar a 26 de Março de 2007 às 17:30
Beijos loucos
De Social mas Light a 26 de Março de 2007 às 18:13
Muito audaz e inovador.
Obrigada pela visita ao meu cantinho
Social mas light
De Marco a 26 de Março de 2007 às 18:43
Não conhecia, li e gostei muito!
Grande texto, cheio de sumo.
Muito bom mesmo!!
Parabéns.

desancar shakermaker

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