Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

pomar teu corpo

 

Por vezes chego quando menos esperas, minha gelatina desejas e por meu iogurte desesperas. Posso ser sumo enfrascado e tua sobremesa, ou apenas embrulhado para te fazer uma surpresa. Oxalá não te atrases, temos encontro marcado: na frutaria mais próxima ou numa bancada do mercado. Compra de mim um quilo – ou até mais se tu quiseres – e faz bom proveito do uso que me deres. Pega-me pelo pé e leva-me à tua boca, ou derrama-me natas se isso te põe louca. Adocica-me com açúcar e faz de mim batido, ou acompanha-me com absinto no teu shot preferido. Dá-me um beijo demorado como aqueles que se vêem no cinema e sente o gosto amorangado desta tua fruta pequena.

Ás vezes surjo em pratos decorados, em banquetes de luxúria ou jantares requintados. Apresento-me cortado em pedaços ou rodelas: sou muito ácido para eles mas como um doce para elas. Olha lá não te esqueças, nem faltes ao combinado: espero por ti numa estufa ou na balança do supermercado. Leva-me por inteiro – ou corta metade se te apetecer – e sacia esse apetite na hora de me comer. Podes ter-me em lata e em gomos cristalizados, ou sugar da minha polpa com os lábios molhados. Bebe desta calda e infligi-me uma dentada, ou faz bavaroise se for isso que te põe excitada. Dá-me um beijo apaixonado se isso te satisfaz e sente o gosto enamorado deste servo ananás.

Por vezes apareço antes do tempo mas sou a tua melhor casta para cada momento. Sou branca ou preta: escolhe uma cor; sou doce ou amarga: escolhe um sabor. Oxalá não te demores, estou à tua espera: encontras-me sempre no Inverno e despedes-te de mim na Primavera. Vivo num cacho pendurada e num barril quando pisada – encho-te o copo e a garrafa – ou sou seca em uva passa. Colhe-me da vinha e segrega-me a madura, mas decanta-me nos lábios e fermenta-me com ternura. Oferece aos deuses o meu néctar divino e serás recompensada na senda do destino. Dá-me um beijo súbito, ou trinca-me num ápice, que eu serei teu súbdito sempre que brindes num cálice.

Ás vezes demoro para desabrochar mas podes colher-me se me quiseres saborear. Nasço pálida, quase branca: sou magenta de madura; avermelho no ponto e sou ginja na candura. Olha lá não te fiques, estou pronta a provar: procura pelo meu cocktail no cardápio de um bar. Dentro dum pote sou compota e no boião tua geleia; num bolo sou teu topo sempre que o orgasmo te anseia. Leva-me ao céu da tua boca e mastiga-me com tesão; engole-me o fruto carnudo e cospe o caroço na mão. Faz amor comigo por uma noite inteira e amanhã colhe-me de novo na tua cerejeira. Dá-me um beijo atrevido e pendura-me ao ouvido: eu entrego-te numa bandeja estes brincos de cereja.

 

Um abraço...

shakermaker

 

para ver: Mulholand Drive » David Lynch
para ouvir: One Day por The Verve em Urban Hymns
blogjob por shakermaker às 00:00

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19 LINCHAMENTOS:
De Cláudia Oliveira a 13 de Janeiro de 2007 às 11:13
Andas muito esquisito pah, andas bem?
De rabat_bat a 24 de Julho de 2007 às 14:48
Olha eu gostei muito do que escreveste!

Romântica como sou até fechei os olhos e imaginei que escreveste para mim.

Beijinho e continua
De NSEEAO a 13 de Janeiro de 2007 às 22:37
Olá. Ironias!!! O Cosmos de Carl Sagan, era a minha série de Televisão preferida há muitos anos. Tive uma loucura por esse homem e por isso mesmo não perdia um episódio sobre o que ele pensava do Cosmos, de onde vinha para onde vinha, e também sem esquecer o charme que dele sobressaía.... (pois é, uma criança como eu era a devorar os programas dele. Quando acabou, sofri um pouco. (a televisão é mesmo cruel, tirar de repente a chucha preferida da menina.)
Nunca me saiu da cabeça uma coisa que ele disse: Cosmos é tudo o que já foi, tudo o que é e que será. O homem é apenas uma fagulha da enorme fogueira da sabedoria cósmica, o mesmo que um grão de areia ou uma gota num oceano imenso.
Não me importava nada de ter em meu poder todo o programa que ele realizou para a televisão. Rever outra vez aquela voz, aquele palco onde rodeavam-lhe tantas estrelas e aquele sorriso.

Bem, esse teu texto... o que posso dizer?? Nada. Não sabia que sabias ser uma cereja.
Ontem, no supermercado vi uma caixa de cerejas bem gordinhas a 10 euros o quilo. Achei aquilo muito estranho, porque estamos no mes de janeiro e é muito cedo para cerejas.

um abraço.
De Zé Pedro a 13 de Janeiro de 2007 às 23:51
Cerejas, Cerejas, onde é que elas estão ??? Era gajo para passar a noite toda enrolado no meio dos lençois e do edredon, com uma caixinha delas... comia-as todas, uma a uma, sem parar até atingir o clímax da noite....Uma grande diarreia !!!

Grande Abraço do Catano

Bom Domingo !!!
De Maria das Dores a 14 de Janeiro de 2007 às 18:45
Muita frrruta, Shaker, para o meu pomar, mas uma delícia de texto. Agrrridoce, sumarento e requintado!
De Zé Pedro a 14 de Janeiro de 2007 às 21:36
Ontem esqueci-me de te dizer que ao ler o teu texto, me lembrei do festival da canção...a tal fufa que canta
" Peguei, trinquei, meti-te na cesta...", lolol

Uma boa semana

P.S. Eu não me incomodo nada que me linkes aqui no teu espaço....lolololol, que maneira bonita de melar, viste ?
De pitecos a 15 de Janeiro de 2007 às 00:58
Boa cereja! embora digam que as melhores são da"Beira Baixa"....
Abraço do Zé
De Kristy a 15 de Janeiro de 2007 às 18:52
Caro amigo..com fruta..ou sem fruta..o que lhe digo é que a sua escrita é um doce para os meus olhos..ouvidos..etc..etc. Sempre espectacular. Beijos
De Noivo a 15 de Janeiro de 2007 às 19:45
com tanta fruta não fica fácil sair deste pomar mas digo-te o seguinte: a fruta sempre fez bem e não é agora que vamos deixar de a comer porque ela gosta mesmo é de ser comida:)
De Zé Pedro a 16 de Janeiro de 2007 às 00:50
Boa noite Amigo,

Passei por aqui para te dizer que a rádio que eu ouço no carro é só Antena 3, só que no escritório criou-se o hábito da RFM, somos 5 pessoas e sinceramente não consigo ouvir outra enquanto trabalho...

Não tem nada a ver com Pomar, mas pronto,passei por cá !!!

Abraço do Catano
De vicio a 16 de Janeiro de 2007 às 23:24
aquela parte do pisar é interessante!!

desancar shakermaker

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